sexta-feira, 15 de maio de 2015

Novas “vozes” da música brasileira - Antonio Loureiro


por Caio Garrido

Onde estão as vozes, músicos e artistas que estariam traçando os caminhos daquilo que seria a música contemporânea brasileira?

Foi tentando responder a essa pergunta que buscamos conhecer um pouco da trajetória do compositor e multi-instrumentista Antonio Loureiro.

Passeando entre a canção e a música instrumental, Loureiro é um dos exemplos mais vivazes e bem vindos da música brasileira atual. Inspirado por sua herança musical, vinda dos contornos regionais dos montes de Minas e outras cercanias, Loureiro inspira seus ouvintes com seu talento e habilidade a serviço da música, potencializando a música instrumental e não a deixando estéril.

Com dois discos solo já lançados, Loureiro traz em sua caixa de sonoridades toda a mistura que o caracteriza: os acentos regionais, a influência do jazz contemporâneo, da cultura popular brasileira, entre outros. Neles, apresenta um esmero no cuidado com a produção e com os detalhes, em cada nota e timbre, potencializando as harmonias em suas contiguidades. Seu último álbum solo tem o sugestivo nome “Só”, que traz diversas participações especiais, como a de Siba, Tatiana Parra, Frederico Heliodoro e outros grandes parceiros, que sempre o deixam bem acompanhado.


- Antonio, nos fale um pouco sobre sua história na música. Minas Gerais influenciou sua música? E o Clube da Esquina?

Cresci e vivi até os 24 anos em Belo Horizonte. Meu pai é clarinetista professor da UFMG e minha mãe musicoterapeuta também professora na mesma escola. Tocava piano muito bem quando pequeno mas desisti porque ganhei uma bateria. E foi através desse instrumento que comecei meu caminho na música. Adorava o Michael Jackson. Ouvi muito rock de todo tipo. Gostava do Sepultura, Soundgarden, Nirvana e várias outras do rock e do metal feito na época. Adorava o Yes, o Genesis, o Pink Floyd, Hendrix, por causa do meu pai e dos amigos mais velhos... Ali eu percebi que existia uma conexão com vários outros aspectos musicais que não somente o rock. Que esses gênios da música tinham influência de muita coisa. Depois de um certo tempo a música eletrônica me marcou também. Ia muito às festas e gostava de fazer essa música no computador. Convivi com muitas possibilidades musicais sem preconceito e curtindo muito a infância, adolescência e juventude. Sempre tive muitos amigos bem mais velhos do que eu. Uma pessoa que me apresentou muita música foi o Pedro Trigo, grande baixista, amigo mais antigo que tenho. Tocamos juntos em banda de rock e até hoje dividimos palcos em vários sons diferentes. Sempre tive alguma noção de como era viver de música e da real necessidade de se estudar música. E adorava estudar muito meu instrumento. Tocar bem! E nesse período, entre 12 e 17 anos de idade, participei de vários festivais de música, fazendo aulas de instrumento e vivendo experiências de banda sinfônica, big band, grupos de percussão e coisas do tipo (Em Tatuí, Campos do Jordão, Diamantina, Ouro Preto, Curitiba; todas essas cidades que sediavam os festivais). Em meio a isso tudo eu tocava, tanto nas bandas cover de rock, quanto na noite com músicos da cena instrumental. Comecei a tocar alguma coisa de jazz e bossa nova instrumental com 11 anos de idade com o Paulão Lacerda, falecido amigo trombonista professor da UFMG e por isso muito amigo da família e do meu pai. Eu ia ver meu professor tocar muito!! E ele, depois de ver que eu adquiri ali uma certa experiência na bateria, me botava pra dar uma “canja”. A partir de um momento, toda vez que eu ia ver ele eu dava essa canja que na verdade era uma super mega escola pra mim. Esse mestre foi o Limão.
Foi ele quem me inseriu na cena da música instrumental de BH. Eu o substituía muito em um certo período. Quando eu tinha de 14 a 16 anos de idade acho... Isso me fez tocar com a maioria dos músicos da música  instrumental de Belo Horizonte. Só quando entrei na universidade que comecei a conviver e tocar com um pessoal mais perto da minha idade e que fazia "outros sons": Rafael Martini, Kristoff Silva, Felipe José e Frederico Heliodoro; que marcaram essa época. Quando me perguntam sobre o Clube da Esquina eu sempre digo que comecei a ouvir mesmo e conhecer mais, não só o Clube, mas tudo que conheço de música brasileira, mais tarde, a partir dos 16. Ao mesmo tempo eu estava sempre tocando esses sons na noite. Em BH é comum ver um grupo instrumental tocando versões do Milton, do Toninho Horta. Mas não conhecia desde pequeno. Fui entender a importância de Elis, Milton, Gil, Caetano e essas figuras todas da MPB mais tarde. Entendi mais ainda quando acompanhei o Toninho Horta e percebi a importância dele na história da música brasileira. O jeito dele fazer música me inspira muito. É livre, é canção, mas não é... Não importa...

- Como você vê hoje a música brasileira? Porque é tão difícil, compositores e artistas como você alcançarem uma melhor notoriedade, tão diferente da época dos festivais nos anos 60, em que num mesmo período de tempo surgiam artistas de real qualidade da MPB para o grande público? Como você acha que se posiciona neste cenário hoje?

Basta você comparar os festivais de televisão dessa época e os de hoje. Ao mesmo tempo eu não vou por esse caminho da comparação de épocas pra se pensar estética, produção musical e formas de consumo de arte e cultura. São muitos os fatores que fizeram e fazem a diversidade e qualidade caírem nos grandes meios de comunicação. Além de fazermos parte da era da imagem... Tudo é imagem!  Não sou a melhor pessoa pra esclarecer sobre as mutações do mercado fonográfico, mas eu entendo que se transformou muito e acho que tem cada vez mais dinheiro envolvido. E acho muito difícil equilibrar a sensibilidade e força para a arte, com a técnica e talento para se fazer dinheiro.  Ou seja, a meu ver, quanto mais dinheiro envolvido, menos arte, pois o objetivo final é o lucro e não o enriquecimento cultural de um público, de um povo. Hoje tem muita coisa boa sendo feita no Brasil. Não se pode dizer o contrário. Não sou e nunca serei o velho reclamão que coloca a música independente e a produção atual no fracasso, no lixo. O Brasil é enorme e não dá conta do tanto de coisa sendo feita. Fato. Temos então que continuar fazendo algo que acreditamos: mexer com a sensibilidade das pessoas, independente da notoriedade ou público que isso traga para o artista. Faço com amor para o público, mas conquistá-lo não é meu objetivo. Meu objetivo é passar uma mensagem, um sentimento, uma ideia, um momento, mexer com o corpo, a dança, um conhecimento, uma reflexão, uma sensação (boa ou ruim); Trabalhar o sensorial e imprimir algo na memória. E é a partir daí que vai se formar o público que vai ouvir o que faço. Não me importando se são milhões ou dezenas de pessoas. No mercado não funciona assim; Se você ouve o que o mercado te vende, na rádio, TV, tudo aquilo é 50 vezes mais "fácil, extremamente fácil", justamente pra entrar no seu cérebro e não sair nunca mais! Eu não estou a fim de invadir o cérebro de ninguém... Deus me livre! Música boa, bem feita, genial, com grandes artistas, surge hoje assim como surgiam antigamente. Só não estão na TV, rádio, ou jornal, a toda hora. Quem está na grande mídia, paga para estar ali e precisa dela para movimentar um negócio. Mas existe a internet e na internet tem espaço pra todos... Ainda... A gente tem que trabalhar com o que tem e se encaixar e abrir os espaços possíveis, com a força e as possibilidades que temos. 


No mercado não funciona assim; Se você ouve o que o mercado te vende, na rádio, TV, tudo aquilo é 50 vezes mais "fácil, extremamente fácil", justamente pra entrar no seu cérebro e não sair nunca mais! Eu não estou a fim de invadir o cérebro de ninguém... Deus me livre!



- Você começou na bateria e na percussão, certo? Você transcendeu a bateria tocando outros instrumentos? O tocar outros instrumentos te deu a possibilidade de olhar e tocar a bateria e percussão de outro modo? Como você se enxerga como músico?

Sim. A bateria tem suas características técnicas e suas linguagens. Levo isso para os outros instrumentos que toco. Tenho mais experiência, técnica e intimidade com a bateria. Mas tocar outros instrumentos e aprender vários outros, me ajuda na produção musical, nos arranjos, na composição e na comunicação com os músicos que trabalho.

- Grande parte de seu CD “Só” foi gravado por você tocando todos os instrumentos. Como é encarar o processo de produção e gravação desta forma?

É uma outra forma apenas. É mais fácil por um lado, porque eu simplesmente gravo uma ideia que já foi formada no arranjo e tiro um som que já está preconcebido. Organizo tudo em blocos e mais blocos de anotação e esboços de arranjo. Por outro lado é difícil, pois não tem um produtor escutando e dizendo se está bom ou ruim aquele take gravado. Então leva mais tempo para amadurecer a ideia e ouvir distanciado do ambiente de intérprete. Trabalhar dessa forma exige que você separe bem o trabalho que você faz como intérprete do trabalho de produtor do disco. O inseparável é justamente o que dá o resultado desse trabalho.




... quanto mais dinheiro envolvido, menos arte, pois o objetivo final é o lucro e não o enriquecimento cultural de um público, um povo. Hoje tem muita coisa boa sendo feita no Brasil. Não se pode dizer o contrário. O Brasil é enorme e não dá conta do tanto de coisa sendo feita. Temos então que continuar fazendo algo que acreditamos: mexer com a sensibilidade das pessoas, independente da notoriedade ou público que isso traga para o artista. Faço com amor para o público, mas conquistá-lo não é meu objetivo.



- Você canta, toca, compõe, e passeia entre a música instrumental e a canção. Quais as dificuldades que encontrou nesse processo? 

Mais natural impossível. Gosto do instrumental e da canção, assim como gosto do doce e do salgado. Às vezes o doce antes, às vezes misturado... Assim como gosto da pintura e do cinema. Enfim, gosto da mistura (em doses diferentes), das características em separado, do clássico, do contemporâneo. Tudo inspira. Não tenho as características de um especialista. Sou menos focado. Disperso e feliz por isso.








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Entrevista realizada simultaneamente para o blog M
úsica Contemporânea  e para a 2. Edição da Revista Tavola Magazine–


Para acompanhar a música “Luz da Terra” do disco “Só”, acesse:

sábado, 4 de abril de 2015

Chet Faker | Fake só no nome - Potencial e Personalidade

O estilo é outro. O instrumento e a voz também. Mas mesmo assim, tudo em Chet Faker  não só a alcunha que lhe dá o nome artístico – lembra o outro semelhante, o original: Chet Baker.
Sua impostação de voz, a sutileza com que toca seu Rhodes, e suas simples e belas composições, fazem jus a sua influência jazzística maior, apesar das diferenças de gênero musical.


 Vale a pena dar uma conferida neste som aqui, diferente da versão originária:
https://www.youtube.com/watch?v=z8Wjdss5uMg
 - Talk is Cheap -  para ouvir mais de 2 vezes


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Michel Leme – 9



Continuamente inovando na forma de praticar música, improvisar e gravar, juntando tudo isso como uma forma de expressão singular, Michel Leme vem com um novo disco, revigorando a música instrumental novamente.

Algumas faixas de seu cd intitulado “9” estão no vídeo abaixo:


Segundo Michel, o nome do disco é por ser seu nono lançamento oficial. Mas as sincronicidades da vida apontam para outros significados também. Segundo ele ainda, na numerologia, dizem que este é o número da inspiração. Caiu como uma luva.


A produção do cd está impecável. Qualidade pra nos surpreender, pois foi gravado numa tarde, sendo metade do disco no primeiro take e a outra no segundo. Com um reverb totalmente natural, Michel diz que foi muito bom gravar numa sala tão grande e viva como esta. Aliás, o som da bateria é algo que se destaca diante de recursos simplificados. Ficou incrível. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Grooves cinematográficos



A bateria está com todo prestígio atualmente: Dois grandes filmes presentes nas indicações de melhor filme para o Oscar 2015 contaram com a bateria no plano principal ou secundário das cenas e trilhas sonoras.

No filme Whiplash: Em Busca da Perfeição, o personagem principal é um baterista que sonha em ser o melhor e marcar o seu nome na música, tal como Buddy Rich e outros grandes do instrumento. Ele é aluno de um sádico professor, que acredita em velhas preconcepções e chavões que aparecem literalmente ou subliminarmente no filme, como: "Baterista não é músico", ou quando no filme o professor justifica suas ações dizendo que Charlie Parker só se tornou quem ele era, pois levou uma "pratada" na cabeça, e que aquele era um método efetivo para se buscar um verdadeiro talento, puxando-o até o extremo limite.

Independente disso e por isso também, o filme é uma pérola para os músicos e não músicos. Mostrou como poucos a grande beleza e dificuldade que é tocar esse instrumento único.

Para corroborar isso que estou dizendo, muitos dos grandes bateristas em atividade vem falando sobre o filme, como Mike Portnoy​, ex-baterista do Dream Theater, que postou em sua página do facebook: "Watched ‪#‎Whiplash‬ again for the 2nd time, blown away again! Best drumming film EVER made! Watch this -->
 https://www.youtube.com/watch?v=dF3NAlZuYmI&feature=youtu.be
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Além de "Whiplash", Birdman, também concorrente ao Oscar de melhor filme, se destaca pela trilha sonora realizada pelo grande baterista Antonio Sánchez, que ficou de fora da lista de pré-indicados ao Oscar 2015 para Trilha Sonora.
Durante a película, um som de bateria permeia as cenas, sendo um dos principais diferenciais do filme.
O diretor Alejandro Iñárritu diz que acha que houve preconceito contra o trabalho prioritariamente percussivo de Sanchez:

"A bateria é, para mim, a batida do coração dos atores. Eu acho que a bateria é um instrumento que não foi muito explorado no cinema. Acho ela tão eficiente quanto a guitarra ou o piano", avaliou o diretor. O cineasta não poupou críticas ao parecer da Academia sobre o assunto. "É uma decisão injusta. É óbvio que a trilha sonora de Antonio representa mais 50% das músicas usadas no filme [um dos critérios para ser elegível]. Isso é um fato. Eu sei que há muito preconceito quando se debate se a bateria tem ou não melodia. Este cara [Antonio Sanchez] estudou música por sete anos em Berklee [uma das melhores, senão a melhor, faculdade de música do mundo]. Ele é um baterista profissional há 30 anos", defendeu Iñárritu. "O filme não seria o mesmo sem a bateria de Antonio. Não considerar isso é dizer 'a bateria não é importante, nós não consideramos isso uma composição musical'. Se eles realmente desclassificarem a trilha sonora será um grande erro. Será escandaloso", afirmou o diretor. (Ouça parte da trilha sonora do filme abaixo)



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Michel Leme – Um arquivo em aberto

Não por acaso Michel Leme lança um novo DVD, em que diferentes apresentações do trio – Michel na guitarra, Bruno Migotto no baixo, e Bruno Tessele na bateria – foram filmadas para estarem presentes no “Arquivos - Vol.1”.

O DVD é composto de uma série de registros ao vivo, gravados em São Paulo em diferentes casas.

Dono de uma capacidade singular de integrar composição e improvisação, Michel também une a música brasileira ao jazz para cometer certas e bem vindas transgressões musicais. Como falei há pouco, as apresentações estão presentes no seu chamado arquivo de apresentações. Presentes não por acaso; Porque a presença implica em um apresentar-se disponível, não só para o máximo que a música pode dar, mas também para o novo. Que é o caso da música instrumental e o improviso que a define e qualifica.

Michel se auto impõe estar inteiramente presente em cada show, em cada música, com a mesma intensidade que o caracteriza.  Não existem arquivos finais. Tudo está disposto e armazenado para se recriar. Tal qual fazemos com nossa memória. Michel Leme leva cada solo e improvisações às últimas conseqüências, que nos leva a pensar que o verdadeiro improviso realmente não é por acaso, trabalha no extremo da criação.

O arquivo está gravado. Cada um de nós, seja Michel ou os apreciadores de sua música, está pronto a uma nova leitura a cada visita a este documento musical. Um arquivo sonoro que se renova a cada show.



Site Michel Leme - http://www.michelleme.com/

sábado, 8 de março de 2014

Frederico Heliodoro – Dois Mundos

No mundo da música há o que chamamos de música para dançar, música pra ouvir, para relaxar, música pra cantar, a que traz energia, e a que transforma tristeza em alegria – como diria o poeta Ferreira Gullar. Ou seja, existe um universo quase infinito para possibilidades e intersecções entre elas.

Dentro desse universo, eu destacaria quatro tipos principais de música: A que valoriza o ritmo; aquela que busca trazer emoção, a que capta a atenção do intelecto, e aquela transcendental. Em outras palavras, a música é feita para atingir o corpo, o coração, a mente, e/ou a alma.
Raramente uma música ou um artista consegue congregar todas essas camadas em seu estilo.

Em teoria, a música instrumental, que é o principal terreno astral onde Frederico Heliodoro atua, é uma música para o intelecto, com altas doses de ritmo e suingue. Frederico é um baixista, compositor e arranjador vindo da bela Minas Gerais, filho do conhecido músico Affonsinho.
Se não bastassem suas origens, que já o credenciariam a uma boa estada neste mundo, Frederico esbanja talento com seu baixo acústico, e com suas composições que não negam sua estirpe; seu “clube da esquina”. Não nega e vai além.

Não é de se esperar que um disco de música instrumental comece com vozes. Romper padrões é um dos bons papéis do artista. Em “Dois Mundos”, Frederico Heliodoro e grupo afinam seus relógios perceptivos e fazem da música um campo de exploração natural e esponjoso, onde cada fricção entre um instrumento e outro produz novas cores, novas estrelas, planetas e constelações, que vão sendo criados no mesmo universo. Do Jazz ao rock, os limites vão se desfazendo e criando outros, mais ricos e sem saturação.

Na faixa inicial “Burian”, podemos vislumbrar o que é o disco, como se olhássemos no buraco da fechadura e víssemos suficiente luz para preencher nosso espírito.

A música inicia-se num processo que poderíamos chamar de espiral, onde a cada volta uma nova camada sonora se anuncia. A música nasce do espiritual e num crescendo vai assumindo características mundanas, mas sem perder o contato com seu nascedouro. Do coro de vozes à bela melodia do piano, vai até os ritmos eloquentes e precisos do baixo acústico, que com sua simplicidade, não esconde o sublime da criação. O rigor do instrumental está ali, nas cordas da guitarra soando suaves e no ponto, e todo o contexto brilhando nas execuções firmes da bateria e piano. E é acurada a forma como a música vai atingindo seus ápices, sem pressa, com fontes pra lá de criativas, se moldando, na direção em que a canção (podemos chamá-la assim?) vai tomando, com ares do rarefeito ao imaterial. 

É como escalar o Everest. A cada camada que sobe o alpinista, as dificuldades aumentam e o terreno, efeitos do clima e altitude vão trazendo mais dificuldades para a missão. A complexidade que o caminho vai mostrando e exigindo não faz perder de vista uma intensa impressão: A de uma missão de natureza da alma.

A beleza se apreende em níveis diversos, e é no tear rigoroso e leve que os dois mundos de Frederico fazem sua junção. No auge da montanha construída e escalada por Frederico Heliodoro e grupo, olhamos a paisagem. Estamos então expostos a esses dois mundos presentes em todos nós. O nome destes, deixo a vocês criarem.

“O contrabaixista Frederico Heliodoro atua na cena musical de BH desde 2007. Já ganhou prêmios como instrumentista e compositor e dividiu o palco com músicos de peso como Roberto Menescal, Benjamim Taubkin, Cliff Korman, Lupa Santiago, Juarez Moreira, Rafael Vernet, Nelson Faria, Sérgio Galvão, Márcio Bahia, Nivaldo Ornellas, Chico Amaral e Cléber Alves. Em 2009 venceu o prêmio “BDMG Instrumental BDMG Cultural”. Em 2010, passou uma temporada em Nova York estudando com importantes músicos da cena jazzista americana como Ari Hoenig, Gilad Hekselman e Mike Moreno. Dois Mundos é seu segundo álbum. Recentemente lançou “Verano”, seu terceiro trabalho.”
Integrantes do cd “Dois Mundos”:
Frederico Heliodoro - baixo, composição e arranjos
Felipe Continentino – bateria
Felipe Viegas – piano
Pedro Martins - guitarra
Produzido por Frederico Heliodoro e Daniel Santiago




Faixa do disco “Burian”- http://www.youtube.com/watch?v=72ko-vO04cI

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pó de Café Quarteto - A tradição e o contemporâneo


 Pó de Café Quarteto, grupo de jazz e música instrumental brasileira, criado em Ribeirão Preto em 2007, está disponibilizando seu primeiro CD para download no site: http://www.podecafequarteto.com/. Do jazz contemporâneo ao "Funk Intergaláctico", o grupo traz uma sonoridade muito bem apurada com composições de integrantes da banda (como Caqui, faixa que abre o álbum, composição de Bruno Barbosa) e de antigos parceiros e músicos convidados em todas as fases de existência da banda, como Bidinho, Mário Feres, Murilo Barbosa, Rubinho Antunes, João Magioni, Caetano Ribeiro e Carlinhos Machado. Com essa mescla marcada pela amizade e anos de trabalho surgiu uma nova e vigorosa obra musical.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Carlos Ezequiel - Jazz Contemporâneo 'made in' Brasil

Entrevista que fiz com o ilustre baterista Carlos Ezequiel para o blog Paulicéia do Jazz:



http://pauliceiadojazz.com.br/?p=14355


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Hamilton de Holanda – Reinvenção do instrumento na criação musical


Hamilton de Holanda, exímio bandolinista brasileiro, vem sucessivamente atingindo os ápices da música contemporânea brasileira instrumental. Uma de suas últimas grandes referências é o álbum “Brasilianos 3”, lançado no final do ano passado (2011). Hamilton não é apenas o que chamamos de instrumentista e compositor; Hamilton vai além; É um criador. Reinventando a forma de tocar bandolim, cria também um novo instrumento, que transgride as formas comuns e conhecidas, para compor uma nova música e uma nova história. Vamos a ela nesta entrevista realizada pelo Blog Música Contemporânea.



-- Hamilton, você considera que já tenha atingido alguma espécie de maturidade por seus 30 anos de carreira musical? É necessário um longo período de maturação da forma de tocar para maximizar a criatividade e chegar ao que chamamos de estilo?

Com certeza me sinto mais maduro hoje do que 10 anos atrás. O tempo moldou o meu estilo musical e a minha pessoa. Acontece que estou sempre buscando o que gosto de fazer, de criar, através de shows, discos, parcerias, viagens, no dia a dia com a família e os amigos, para conseguir sintetizar todas essas informações e ter um resultado artístico fluente e verdadeiro. Com o tempo, você aprende a peneirar aquilo que pode somar e deixar pra lá aquilo que atrapalha.



-- Li em uma recente entrevista no qual você diz algo sobre a importância da intimidade com o instrumento. O quanto desta intimidade é fruto de uma crescente intimidade consigo mesmo? O caminho em direção a fraseados mais simples é realizado pensando nisso ou é apenas uma consequência da exploração musical e interior?

O importante nesta questão é a soma da técnica com o sentimento. Quanto mais intimidade técnica você tem com o instrumento, fica mais fácil você expressar suas ideias e sentimentos. Sobre a intimidade comigo mesmo que você cita na questão, já fico sozinho o bastante em quartos de hotel. Gosto mesmo é de estar entre amigos, com a família. A solidão é importante, mas não é o que mais gosto. Não faço música só pra mim, faço pra me encontrar com as pessoas.

-- No trabalho em grupo, a aproximação entre os músicos contribui para suas composições?

Eu acho que sim. Nos meus trabalhos, isso faz diferença. Já vi grupos tocarem muito bem e depois descobri que não havia nenhuma ligação afetiva entre os músicos. Isso existe; não no meu caso.

-- Existe alguma diferença no approach/abordagem quando se mudam as formações da banda? O álbum “Brasilianos 3” tem diferenças em relação aos trabalhos anteriores?

Existem duas diferenças: a personalidade de cada músico influencia diretamente no resultado do trabalho, e claro, que tipo de instrumento cada um toca. Minhas decisões na hora de fazer um trabalho são tomadas em função dessas variantes, sempre buscando o máximo que pode ser feito por cada um e por cada instrumento, respeitando e trabalhando lado a lado com as peculiaridades de cada um.

-- A reinvenção na sua forma de tocar bandolim influenciou a forma como compõe?

Influenciou completamente. Eu sempre faço algo que tenha um sentido musical, que passe por acordes e ritmos que possam emocionar o ouvinte, o espectador, mas sempre com um toque do desafio, de encontrar algo que ainda não fiz. Nesse último ano tenho pensado também como contribuir mais ativamente para a evolução do bandolim, então tenho composto música-estudo. Fiz uma série de Caprichos, inspirado em Paganini. Músicas que, além de músicas, são estudos, e se eu não disser que são estudos, as pessoas nem vão perceber.

-- Você cita como influências suas desde grandes músicos até pintores e escritores. Como essas artes e artistas influenciam sua obra?

Na verdade, qualquer acontecimento da vida me influencia, a antena está ligada 24 horas por dia. Vejo um quadro e me transporto, o mesmo acontece com um filme, um livro. É muito bom compor após o impacto que uma obra causa em minha mente, em meu coração. É uma maneira de me comunicar com a alma das pessoas.

-- Quais direções você acha que se encaminhará sua vida e os próximos trabalhos?

Também gostaria de ter essa resposta, mas minha bola de cristal é muito turva, não consigo ver com precisão o meu futuro. E gosto que seja assim. Quando decidi ser músico profissional, sabia que seria assim, cada dia uma nova história, e todas elas interligadas com o passado e com o futuro. O que me resta é viver e agradecer.

-- Qual limitação mais te ensinou e te levou mais longe na sua vida de músico?

Tocar bandolim!



Vídeo com Hamilton de Holanda:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=vGfXYGFSgsk - Hamilton de Holanda Quinteto - Saudade do Rio (H. de Holanda) - Instrumental SESC Brasil



Entrevista realizada por Caio Garrido

terça-feira, 17 de julho de 2012

Kurt Rosenwinkel – Inovação sem mistério

Quando um secreto mundo revela-se “abaixo de nossos pés”, atrás de nossos pensamentos, ou fora de nossa órbita ocular, aparece uma nova margem de limites, antes não perceptível ao nosso senso comum.

“Our Secret World” é um postulado à possibilidade da eterna exploração de ideias. No caso aqui, ideias musicais que envolvem os ouvintes de Kurt Rosenwinkel.

Kurt e seu álbum inovador de 2010, junto à orquestra OJM de Matosinhos/Portugal, explodem vibrações sinestésicas que transcendem o modo tradicional de se tocar jazz. Sendo um dos principais expoentes do jazz contemporâneo, ele não vira a cara para reverbs, delays, ou distorções sutis em sua guitarra. Tem na prática do conjunto a principal expressão da magnitude possível da criatividade individual.


Com uma alta dose de melodia, harmonia e texturas bem desenvolvidas, o secreto mundo de Kurt vem à tona, natural e descompromissado, tal como seu modo de tocar.



http://www.youtube.com/watch?v=aiw8CTK2o_Q&feature=player_embedded


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

João Viana – Expandindo o legado


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Independente de ser filho de Djavan, o que percebemos ao ouvir esse músico de nome próprio João, e segundo nome Viana – reitero o nome devido à magnitude de seu tocar – é uma música singular e de identidade própria.

Atuando desde 1994, João Viana é um grande instrumentista brasileiro que vem amadurecendo dia a dia, depois de já ter participado de trabalhos com grandes nomes da música brasileira e do mundo, no estúdio e em shows, como Cássia Eller, Pedro Mariano, Nando Reis, Leila Pinheiro, Djavan, Fábio Júnior, Max Viana, Moska, Monique Kessous, Francisca Valenzuela, e muitos outros.

Conversei com ele durante sua passagem por São Paulo, na turnê em companhia de Paulinho Moska, que não por acaso o recrutou como baterista. Através desta turnê, João mostra todo seu trato linguístico de tocar. É sempre uma surpresa cada vez que o vemos no palco com sua Yamaha. É um repertório de ideias, viradas, dinâmicas, intensidades, que com simplicidade, sempre somam a música. E na música, como na conversa, cada "comunicação" acrescenta à outra.

Durante o show de turnê do CD “Muito Pouco” de Moska, João Viana consegue mais uma vez mostrar o bom gosto musical e escolha dos timbres de sua bateria. Tem a sabedoria em orquestrar seus arranjos – sempre se afinando aos arranjos do grupo – para impulsionar fôlego e vigor para as músicas, provando que um show é um encontro.


-- Como foi seu começo na bateria?

O meu interesse pela bateria começou de modo bem parecido com o de todos os bateras que a gente conhece por aí, batucando em panelas, na mesa, quando eu tinha uns 7, 8 anos. Quando eu tinha 9 anos, meu irmão mais velho, Max Viana, montou uma banda (a primeira banda dele) chamada Mitra, uma banda de rock, no Rio de Janeiro. Eles ensaiavam em casa. E a bateria ficava montada lá. Uma “Pinguim” cheia de pratos, com um “Paiste” vermelho! Eu ficava impressionado, maluco com aquilo. Foi ali que eu comecei a sentar na bateria e já fazer algumas levadinhas, tudo de ouvido. Mas eu só fui ganhar a minha primeira bateria aos 12 anos. Foi aí que comecei a ter aulas com o Carlos Bala. E fiquei tendo aulas com ele por muito tempo, mas sempre no esquema de uma vez por mês, pois na época, os artistas faziam turnês gigantescas e, além disso, quando ele estava no Rio ele tinha milhões de gravações. De vez em quando conseguia ter aulas quinzenalmente. Era sempre muito proveitoso. Toda a minha base está ali naquelas aulas que tive com ele. Eu lembro que às vezes a gente nem sentava na bateria. Ele me contava histórias de gravações, de como solucionou algumas situações na estrada. Ele fazia eu me dedicar aos estudos na borracha, passava pelos exercícios técnicos obrigatórios, rudimentos. Mas na época eu era apaixonado por futebol, tudo que eu queria era jogar bola. Eu ia para aula dele já com a chuteira e o meião na bolsa. E muitas vezes ele me dava aquele puxão de orelha: “Pô, João, concentra aqui na aula, sei que você está louco pra ir jogar bola.” Eu vivia na dividida entre essas duas paixões, mas graças a Deus a bateria é que falou mais forte.

-- Ainda sobre o Carlos Bala, o que ele mudou na sua maneira de pensar a bateria e no seu jeito de tocar?

O leque de opções e ensinamentos que o Bala me deu, foram a disciplina e o profissionalismo. Tecnicamente falando, sempre buscar o melhor timbre, tocar sempre da forma mais relaxada, dar o mínimo de esforço ao corpo, e conseguir fazer as coisas soarem bem. Ele é um mestre pra mim, um mestre para todos nós. Sem contar as aulas, só de ver ele tocando ou gravando já era um grande aprendizado; Ficar de olho nos shows, gravações, na época que ele tocava com meu pai. Eu ficava de olho nele o dia inteiro, aquela coisa de pupilo mesmo. Então acho que na minha forma de tocar é inegável que tenha ali contida várias informações que eu peguei com ele. Tenho essa influência forte dele, mas por outro lado ele sempre me orientou a procurar a minha marca, a minha assinatura, e hoje eu posso te afirmar que a maior dádiva que um músico pode ter é ter a sua assinatura, é aquela coisa de você ouvir a música no rádio e saber quem está tocando. Isso não tem preço, porque milhões de outras coisas estão aí para quem quiser, como por exemplo a técnica; O cara pode ficar cinco horas por dia e ter uma super velocidade, com um domínio absurdo. Não existe dom para a técnica, existe dedicação. Mas para você ter a sua assinatura, é aí que vem o diferencial. A minha maior busca está aí, em achar uma assinatura. O maior elogio que você pode me fazer é você virar pra mim e me dizer que ouviu um negócio que é a "sua cara", que deixou sua marca ali naquela música. Num mundo lotado de músicos talentosos, o diferencial está em você ter esse diferencial.

-- E você estuda ou estudou muitas horas por dia?

Sim. Realmente eu tive uma rotina de estudos bem intensa. Eu abdiquei de muita coisa para ficar madrugada adentro estudando, pesquisando muito, fazendo o que todo mundo tem que saber em determinado momento da vida. Alguns fazem pra sempre, conseguem manter essa rotina. Hoje eu não consigo manter uma rotina fixa de estudos, mas hoje o meu estudo é voltado mais para pesquisas do que para rudimentos, caixa… Eu não consigo mais ter essa disciplina. Até porque agora, morando em apartamento, não tenho bateria em casa. Para manter o contato com a bateria é só na estrada, quando vou dar aula, ou no estúdio. Por isso eu procuro chegar antes na passagem de som em shows, para assim eu ter algum contato com o instrumento. Mas constantemente eu pesquiso muito os bateristas, as novidades de equipamentos, timbres, etc.

-- Como foi a relação com seu pai nesse aprendizado? Como foi quando gravou o primeiro disco com ele?

É evidente, não dá para negar, que um dia, se tudo corresse bem eu iria tocar com meu pai. Só que foi muito importante para mim, ter passado por outros artistas antes. Isso me deu uma base muito boa e mais segurança quando eu cheguei para tocar com meu pai, na primeira turnê, do CD Milagreiro. Na época, a Cássia Eller tinha acabado de falecer e eu ainda estava muito mexido com aquilo, a Cássia foi um marco na minha vida. O início das gravações foi um pouco complicado, pela questão de duas formas diferentes de trabalhar. A Cássia gostava de deixar a coisa bem solta, e o Djavan gosta de deixar tudo bem mais amarrado. Meu pai aplica aquela coisa de que menos é mais. Você consegue perceber uma diferença bem grande entre o primeiro disco que eu gravei com ele, até o último, o disco “Matizes”. No início ele me transformou num executor. No “Matizes” eu pude realmente experimentar várias coisas, influenciar a música. Meu pai é um artista com quem todo mundo quer tocar. E eu sendo filho, não é diferente. Eu, nesse caso, antes de ser filho, sou músico. E como músico, eu ouço aquilo tudo e falo “Que som! Quero tocar também esse som”. Mas tudo veio na hora certa, depois de eu ter tido uma boa experiência com outros artistas.

-- Além da questão da bateria, como funcionou essa relação musical com o Djavan no seu crescimento como músico e pessoa?

Sempre ouvia muita música, fui muito eclético. Sempre prestei atenção nele tocando violão. Sempre fiz questão de ir aos estúdios, observar, ver como as pessoas entendiam a música dele. Sempre conversei muito com ele, e tudo isso facilitou muito, me dando vivência musical.

-- Me parece que estar na banda de Cássia Eller era como estar numa família. Quais são suas lembranças dessa fase?

Era uma banda mesmo. A Cássia era como se fosse a vocalista da banda. Não tinha aquelas coisas de praxe de artista, como por exemplo, um carro ou um camarim pra banda e outro carro e outro camarim para o artista. Ela nunca gostou disso. Ela queria estar junto de todos, ir à praia, jogar baralho. Ela sempre foi muito ‘família’, ao mesmo tempo mãezona, filha, irmã, amiga, enfim, uma pessoa sensacional, uma artista fenomenal, hiper musical. Ela gostava muito de música. Nas passagens de som, ela tocava baixo, bateria… Só tenho lembranças maravilhosas de shows, momentos no palco, como olhares, coisas íntimas, de sintonia, coisas únicas, que aconteciam com freqüência entre nós. Nós conseguimos uma química muito forte.


-- Quais são suas maiores influências na música e na bateria?

A primeira resposta que me vem à cabeça é Beatles. Na década da existência da banda, eles conseguiram adiantar muitas tendências que estariam por vir. É como se já tivessem apresentado uma novidade que estaria por vir, só que anos e anos antes. Novidades em termos melódicos, em termos harmônicos, por mais simples que fossem; Os ritmos: O Ringo Starr era um baterista moderníssimo para a época. Fazia levadas totalmente imprevisíveis.
Além disso, a MPB, que vivenciei muito, por ter visto nossos grandes mestres de perto, pela convivência deles com meu pai; A música africana, a música americana, inglesa. Em casa, na época do vinil, meu pai sempre ouviu de tudo um pouco. Eu também ouvi muito rock, gosto muito de rock’n’ roll. É uma grande influência pra mim. Talvez seja o tipo de música que mais me contagia – não exatamente a que mais gosto – mas a que mais me contagia.
Quanto aos bateras, gosto de A a Z. De diferente, dos bateristas que estão me influenciando hoje, tem os bateras de gospel dos EUA, Eric Moore, Aaron Spears, Tony Royster Jr. – embora caberia uma crítica, de que eles tocam mais ou menos igual. Mas eu tenho gostado muito do Eric Harland, batera de Jazz, Karim Ziad, baterista árabe excepcional, ultradiferente, e Jojo Mayer. Sempre vou gostar dos mestres, como Vinnie Colaiuta, Steve Gadd, Omar Hakim, Marcus Baylor, Will Kennedy do Yellowjackets. Aqui no Brasil, Carlos Bala, Márcio Bahia, Téo Lima, Cesinha. Cesinha é um batera essencial na minha carreira, por tudo o que ele já me disse, por ter estado presente nos shows que ele fez desde a época com o Caetano, Marisa Monte, agora com a Vanessa da Mata. Tudo o que ele fez eu acompanhei. Ele é um cara que sempre me ajudou e incentivou, que tem uma linguagem que gosto muito, e que aplica muito bem essa linguagem da simplicidade, de tocar para a música, com precisão, com som bom. Tem também o Pupilo, que é um cara fantástico. É muito bom ter um cara como ele na nossa música. Tem o Edu Ribeiro, Cássio Cunha. O Brasil está muito bem servido. E eu não me influencio só pelos bateras não. Ouço os baixistas, pianistas, que você pode aproveitar uma melodia, para criar um fraseado, para recriar uma melodia.


-- O seu tempo musical tem uma coisa única e precisa, que passa para quem ouve uma elegância ao tocar e um grande controle do que está fazendo. Qual é o segredo para manter essa constância de "respiração" musical, nessa quase fusionalidade com o tempo? Você usa aquele tipo de recurso de olhar para os próprios movimentos do corpo para conseguir “estar” no tempo?

Isso é um recurso muito bom para você pensar no andamento, para conseguir manter um padrão. Porque ninguém é máquina. Ou você toca com o click, ou você vai ter que respeitar o fato de que você não é uma máquina, e que vai ter uma pequena oscilação na música, o que é super bem vindo, pois a música não nasceu para ser estática. A música nasceu para evoluir junto com a canção, evoluir dentro dela mesma. Ou seja, você vai para o refrão, a coisa anda um pouquinho, depois você volta... Você tem uma dinâmica, e depois vai tudo lá “embaixo”... É inevitável e bem vindo que de repente o andamento caia um “pontinho”, dois “pontinhos”, e se não for nada grotesco, é bem vindo para a música. E aquela coisa que após tocar tanto tempo com click, em turnês com loops, eletrônicos, etc., estou gostando muito de identificar isso, de como é prazeroso quando isso acontece com a música. Mas para você manter um padrão, independente do click, tem uma coisa que aprendi com um amigo meu que é memorizar o tempo de uma nota para outra, como por exemplo, qual é a distância do bumbo para chegar à nota da caixa. Se você prestar atenção, você começa a memorizar e interiorizar o tempo de duração de uma nota pra outra. E olhando para seus próprios movimentos, você consegue perceber se está mais rápido no contratempo do que estava antes, por exemplo. Isso é um bom exercício, começar a prestar bastante atenção nisso. Isso te dá uma boa noção de andamento, relaxamento. E o andamento tem a ver com o estar relaxado também. Se você está todo tenso a tendência é correr, oscilar muito. Então quanto mais relaxado você toca, acho que facilita em tudo, A bateria é um instrumento muito braçal, então tem que haver uma economia nos movimentos.

-- Ainda olhando para este horizonte, o diferencial de energia que você usa ao tocar, com uma certa plasticidade de 'movimentos', é uma das coisas que faz criar um alto-relevo de sua singularidade?

Acho que sim, mas acho que mais do que isso, tem a ver com uma questão de personalidade. Sou um cara calmo. A gente é o que a gente toca, a gente toca o que a gente é. Então eu procuro usar essa calma na hora de tocar. Mas não foi sempre assim. Já fui um baterista ansioso, que queria tocar todas as notas. Mas eu descobri cedo que o que mais importa é a música. A gente não pode querer ganhar da música. Músico nenhum pode querer ganhar da música. Você está a serviço dela, e não ela que está a seu serviço.

-- Quais são os critérios que você utiliza para a escolha e variação de timbres do seu kit, dependendo de qual gig você vai estar?

Como eu não consigo mais ter uma rotina de estudos, a forma que eu encontrei de tentar me reinventar, foi fazer mudanças, me obrigando a tocar de uma forma diferente em função do kit. Se eu for gravar um disco inteiro de alguém, é muito difícil eu ir da primeira música até a última com a mesma formação. Vou variar os tambores, os pratos, as caixas, as afinações. É uma coisa que me dá prazer. Eu gosto de chegar cedo às passagens de som, quando é um dia que estou a fim de fazer. Eu gosto de mexer. É uma forma de você tocar um pouco diferente em determinada noite, por exemplo. Uma coisa que gosto de fazer é inverter os tambores. A mesma virada que você faz há muito tempo, com essas variações de tambores, já vai fazê-la soar diferente. Eu já vou fazer 20 anos de carreira, então é preciso variar para manter a coisa viva, fresca.

-- Como está sendo o novo trabalho e turnê com o Paulinho Moska?

O Moska é um grande amigo, de longa data, desde a minha adolescência. Ele acompanhou o meu início profissional. Sempre gostei muito do trabalho dele. Estou agora entrando no quarto ano com ele. Gosto muito de sua obra, ele é um artista muito tranqüilo, que dá liberdade para trabalhar. Quer te ouvir, ouvir suas ideias.

-- No show com o Moska, percebi que você consegue acrescentar muito ao som dele e da banda, com seu modo de tocar. Como você cria essa consonância para potencializar e "compor" uma nova orquestração de arranjo com a banda em um show?

Primeiramente, eu escolho coisas que não podem mudar; que aquela música precisa daquela “coisa”. Aí separo essas coisas num grupo. Todo show você vai me ver fazendo aquelas coisas. E deixo e gosto que tenha um espaço para um improviso, uma vez que você já conhece tão bem aquelas músicas, que aí você se dá o direito de acrescentar uma coisa ou outra. Tem dias que não se tem muitas ideias, mas tem dias que estão fervilhando ideias. Cada baterista tem seu conceito. Este é meu conceito. Eu gosto de manter coisas que fazem bem à música. E é ideal saber que os outros músicos que estão tocando com você também tem conceitos parecidos, e vão querer aplicá-los. E aí a coisa começa a fluir de uma forma bem mais tranqüila.

-- Você está gravando um projeto pessoal no momento, certo? Quais as influências e expectativas em relação a ele? Seria um rito de passagem para você?

Estou gravando um disco meu desde 2009. Começou só como um registro de minhas músicas. Não é nada instrumental, é cantado (eu mesmo canto). Em função dos compromissos com os artistas, acaba que fica sempre para depois. E sem apoio, o projeto acaba sendo adiado. O trabalho não tem pretensão de me lançar, não tem pretensão de nada. É para enriquecer minha carreira. Estou gravando a bateria, os violões, as programações. As músicas são minhas com muitas parcerias. Mas, sinceramente, o que eu quero é o disco pronto, não me preocupo com o que virá depois, se terá shows ou não... As influências vêm de tudo que já ouvi e toquei, do rock’n’ roll à bossa nova. Mas nada impediria que no futuro se tornasse meu projeto principal, por exemplo. Não dá para saber. A vida é imprevisível.


-- Como você vê a música e seu cenário nos dias de hoje? O que você espera da música no futuro?

Eu procuro ser muito sincero. Está muito ruim. Está ruim não porque existam gêneros musicais que estejam predominando. Tem que ter todo tipo de gênero. Mas tem que ter pra todo mundo. E esse é o problema. Não está tendo para todo mundo. Não está tendo espaço para todos. Eu não quero que o Luan Santana deixe de ganhar milhões e deixe de fazer 25 shows por mês. Quero que ele tenha esse espaço também. O problema é quando ‘ele’ é o resultado da má distribuição de possibilidades dentro da nossa cultura. Isso está ficando insuportável. Por que ele tem que ter este acesso irrestrito, enquanto outros artistas estão numa batalha intensa e não conseguem nem uma agenda fixa de shows? É isso que precisa ser repensado. Se você me perguntar como é que isso pode ser mudado, eu não saberia te dizer, e para ser sincero, não vejo mudança a curto prazo. Se tiver alguma mudança, vai demorar muito tempo, pois o tipo de música que ‘ele’ faz gera muito dinheiro também. Mas a cultura está se perdendo de uma forma geral. Se alguém pega uma música ruim, e a coloca para tocar 40 vezes por dia na rádio, até eu saio cantando. Quando meu filho começa a ouvir isso, eu tenho que redobrar a carga de Beatles, de MPB, o que graças a Deus ele gosta também. Quando você coloca uma música ruim tocando 40 vezes ao dia, aquilo vende horrores. Então porque não fazer isso com música boa também? Vai acontecer o mesmo. Vai haver espaço novamente para os grandes artistas. Coloque música boa 40 vezes ao dia e aquilo vai se refletir em vendas, em shows. O direcionamento da cultura está errado. Em algum momento teremos que refletir sobre isso. A forma como estão lidando com a nossa cultura precisa ser revisada. Tom Jobim deve estar se revirando, se remoendo no túmulo. E isso refletiu muito na minha carreira, na carreira de qualquer músico acompanhante. Eu toco com determinado segmento de artistas que sofreu muito com isso, artistas que sofreram muito com essa baixa na cultura. Ficou ruim para todo mundo.

-- Tem dias na sua vida que você consegue não pensar em música? É possível ser feliz sem música?

Eu procuro às vezes não pensar em música, como qualquer outro profissional, que precisa de um descanso e apreciar outras coisas. Acho saudável. Não acho ser possível viver sem música. O que faz a musica ser o que ela é, é que o ser humano pode passar a vida inteira sem ler um livro, sem ir ao cinema, etc., mas você não vai conhecer ninguém que passe a vida inteira sem música. Mesmo que você não queira, a música vai estar ao seu lado, ela vai passar por você. E a música esta dentro de nós. Todos têm aquela música que traz lembranças. A música faz você ver um filme inteiro na sua frente, faz você se recordar de coisas que estão guardadas lá no fundo. Ela tem esse poder.


.* João Viana agradece à Vic Firth, Soultone, Yamaha e Evans.


Links e Vídeos com João Viana:

http://www.youtube.com/watch?v=bRy24iKS4LA&feature=related
– Trechos de músicas do show com Moska – Sesc Pompéia



http://www.youtube.com/watch?v=GjC1aZZtK-U&feature=related
– João Viana em estúdio
http://www.youtube.com/watch?v=LriM7tYfsFM&feature=related
– João Viana – Túnel do tempo
http://www.youtube.com/watch?v=Y8iQOag5zKg&feature=related
- Tributo a Cássia Eller - Maceió-bastidores

http://www.joaoviana.com.br/#!vídeo

http://www.joaoviana.com.br/#!áudio
– Prévia do single “Sixteen” do seu primeiro trabalho a ser lançado.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Entrevista - Thiago "Big" Rabello - Rev. Modern Drummer Jan/2012




Olá pessoal,

A revista Modern Drummer de Janeiro/2012 vem com muitas novidades, entre elas uma entrevista que fiz com o baterista Thiago Big Rabello.

A seguir, um pequeno trecho, e mais informações no link:

http://www.moderndrummer.com.br/?area=materia&colid=6&matid=136


Thiago “Big” Rabello, baterista e produtor, é um daqueles músicos que atravessam as intrincadas “vilas” musicais, fazendo o complexo parecer simples. Através desta entrevista dada à MD, ele prova que para a música soar bonita e complexa, deve haver uma transparente naturalidade nos estudos, gravações e shows. Tudo em sintonia com o resto da banda, com um mix de vínculo musical e pessoal.



Isso é mostrado particularmente nos projetos em que ele está envolvido no momento, que vai desde a bem sucedida gig com a cantora Dani Gurgel, que atravessa um merecido sucesso na cena da boa música, até gravações com artistas que vão de um extremo a outro em termos de estilos musicais.



Essa naturalidade vem de sua descendência musical. Incentivado pelo pai Luiz Rabello, começou a tocar aos 12 anos de idade. Vamos então à simples versatilidade de um músico que torna a bateria contemporânea mais visual e gostosa de seu ouvir.

MD: Olá Thiago, em quais projetos você está envolvido no momento?



Thiago “Big” Rabello: Eu faço de tudo um pouco. Além dos discos da Dani Gurgel, Ana Cañas e Tatiana Parra, também gravei recentemente no disco novo do Pedro Mariano, com quem estou fazendo shows. Gravei o DVD comemorativo de 40 anos do Chitãozinho & Xororó (Nova Geração), Luan Santana, João Bosco e Vinicius. Acabo de gravar o disco do Filipe Catto e estou produzindo, no meu estúdio, um projeto pessoal que se chama "Coletivo Urbano", que é um mix de artistas independentes de vários estilos que moram em São Paulo.

MD: Nos projetos que você atua, há uma grande mistura tanto da música brasileira com o lado jazzístico, como com o pop também. Na composição dos arranjos da bateria, qual é o seu principal papel?
Complementar texturas, criar um ritmo que encabece a organização principal de uma composição, enfim qual o seu grau de envolvimento na criação dos arranjos e da produção final?


Thiago “Big” Rabello: Minha maior preocupação é deixar a música fluir. Toco para a música e para o conjunto, nunca para a bateria em si.

MD: Você tem algum outro estilo musical que já tenha tocado e que gostaria de tocar um dia novamente?


Thiago “Big” Rabello: Meu dia a dia é bem variado. Não tenho um estilo preferido, mas recentemente comecei dois projetos instrumentais, que era algo que não tocava fazia tempo. Um é o trio do Cesar Camargo Mariano, com quem toquei no Goyaz Jazz Festival, em janeiro (2011), e o outro é o disco da Débora Gurgel.

MD:
Você acha que a disposição das peças do kit da bateria, como os tons, por exemplo, pode determinar uma melhor performance do baterista, ou o baterista de alto nível deve ter a vocação para tocar em qualquer tipo de kit a qualquer momento?



Thiago “Big” Rabello: Acredito que a postura do baterista e a maneira de montar o kit fazem o rendimento aumentar mil por cento. É muito difícil "dar canjas" e tocar em qualquer kit que não seja o seu – você acaba não rendendo como renderia se estivesse com seu kit.

MD: Polirritmia e ritmos quebrados fazem parte de seu dia a dia. Além de você dar vários dribles com o seu tocar, que ritmos já te deram muitas rasteiras?

Thiago “Big” Rabello: Todo ritmo tem a sua dificuldade. Meu maior desafio é fazer com que todos eles soem simples. A maior rasteira que tomo é quando acerto a técnica, mas não sai natural.


Continua na edição 110 - jan/2012...









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