sábado, 8 de março de 2014

Frederico Heliodoro – Dois Mundos

No mundo da música há o que chamamos de música para dançar, música pra ouvir, para relaxar, música pra cantar, a que traz energia, e a que transforma tristeza em alegria – como diria o poeta Ferreira Gullar. Ou seja, existe um universo quase infinito para possibilidades e intersecções entre elas.

Dentro desse universo, eu destacaria quatro tipos principais de música: A que valoriza o ritmo; aquela que busca trazer emoção, a que capta a atenção do intelecto, e aquela transcendental. Em outras palavras, a música é feita para atingir o corpo, o coração, a mente, e/ou a alma.
Raramente uma música ou um artista consegue congregar todas essas camadas em seu estilo.

Em teoria, a música instrumental, que é o principal terreno astral onde Frederico Heliodoro atua, é uma música para o intelecto, com altas doses de ritmo e suingue. Frederico é um baixista, compositor e arranjador vindo da bela Minas Gerais, filho do conhecido músico Affonsinho.
Se não bastassem suas origens, que já o credenciariam a uma boa estada neste mundo, Frederico esbanja talento com seu baixo acústico, e com suas composições que não negam sua estirpe; seu “clube da esquina”. Não nega e vai além.

Não é de se esperar que um disco de música instrumental comece com vozes. Romper padrões é um dos bons papéis do artista. Em “Dois Mundos”, Frederico Heliodoro e grupo afinam seus relógios perceptivos e fazem da música um campo de exploração natural e esponjoso, onde cada fricção entre um instrumento e outro produz novas cores, novas estrelas, planetas e constelações, que vão sendo criados no mesmo universo. Do Jazz ao rock, os limites vão se desfazendo e criando outros, mais ricos e sem saturação.

Na faixa inicial “Burian”, podemos vislumbrar o que é o disco, como se olhássemos no buraco da fechadura e víssemos suficiente luz para preencher nosso espírito.

A música inicia-se num processo que poderíamos chamar de espiral, onde a cada volta uma nova camada sonora se anuncia. A música nasce do espiritual e num crescendo vai assumindo características mundanas, mas sem perder o contato com seu nascedouro. Do coro de vozes à bela melodia do piano, vai até os ritmos eloquentes e precisos do baixo acústico, que com sua simplicidade, não esconde o sublime da criação. O rigor do instrumental está ali, nas cordas da guitarra soando suaves e no ponto, e todo o contexto brilhando nas execuções firmes da bateria e piano. E é acurada a forma como a música vai atingindo seus ápices, sem pressa, com fontes pra lá de criativas, se moldando, na direção em que a canção (podemos chamá-la assim?) vai tomando, com ares do rarefeito ao imaterial. 

É como escalar o Everest. A cada camada que sobe o alpinista, as dificuldades aumentam e o terreno, efeitos do clima e altitude vão trazendo mais dificuldades para a missão. A complexidade que o caminho vai mostrando e exigindo não faz perder de vista uma intensa impressão: A de uma missão de natureza da alma.

A beleza se apreende em níveis diversos, e é no tear rigoroso e leve que os dois mundos de Frederico fazem sua junção. No auge da montanha construída e escalada por Frederico Heliodoro e grupo, olhamos a paisagem. Estamos então expostos a esses dois mundos presentes em todos nós. O nome destes, deixo a vocês criarem.

“O contrabaixista Frederico Heliodoro atua na cena musical de BH desde 2007. Já ganhou prêmios como instrumentista e compositor e dividiu o palco com músicos de peso como Roberto Menescal, Benjamim Taubkin, Cliff Korman, Lupa Santiago, Juarez Moreira, Rafael Vernet, Nelson Faria, Sérgio Galvão, Márcio Bahia, Nivaldo Ornellas, Chico Amaral e Cléber Alves. Em 2009 venceu o prêmio “BDMG Instrumental BDMG Cultural”. Em 2010, passou uma temporada em Nova York estudando com importantes músicos da cena jazzista americana como Ari Hoenig, Gilad Hekselman e Mike Moreno. Dois Mundos é seu segundo álbum. Recentemente lançou “Verano”, seu terceiro trabalho.”
Integrantes do cd “Dois Mundos”:
Frederico Heliodoro - baixo, composição e arranjos
Felipe Continentino – bateria
Felipe Viegas – piano
Pedro Martins - guitarra
Produzido por Frederico Heliodoro e Daniel Santiago




Faixa do disco “Burian”- http://www.youtube.com/watch?v=72ko-vO04cI

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pó de Café Quarteto - A tradição e o contemporâneo


 Pó de Café Quarteto, grupo de jazz e música instrumental brasileira, criado em Ribeirão Preto em 2007, está disponibilizando seu primeiro CD para download no site: http://www.podecafequarteto.com/. Do jazz contemporâneo ao "Funk Intergaláctico", o grupo traz uma sonoridade muito bem apurada com composições de integrantes da banda (como Caqui, faixa que abre o álbum, composição de Bruno Barbosa) e de antigos parceiros e músicos convidados em todas as fases de existência da banda, como Bidinho, Mário Feres, Murilo Barbosa, Rubinho Antunes, João Magioni, Caetano Ribeiro e Carlinhos Machado. Com essa mescla marcada pela amizade e anos de trabalho surgiu uma nova e vigorosa obra musical.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Carlos Ezequiel - Jazz Contemporâneo 'made in' Brasil

Entrevista que fiz com o ilustre baterista Carlos Ezequiel para o blog Paulicéia do Jazz:



http://pauliceiadojazz.com.br/?p=14355


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Hamilton de Holanda – Reinvenção do instrumento na criação musical


Hamilton de Holanda, exímio bandolinista brasileiro, vem sucessivamente atingindo os ápices da música contemporânea brasileira instrumental. Uma de suas últimas grandes referências é o álbum “Brasilianos 3”, lançado no final do ano passado (2011). Hamilton não é apenas o que chamamos de instrumentista e compositor; Hamilton vai além; É um criador. Reinventando a forma de tocar bandolim, cria também um novo instrumento, que transgride as formas comuns e conhecidas, para compor uma nova música e uma nova história. Vamos a ela nesta entrevista realizada pelo Blog Música Contemporânea.



-- Hamilton, você considera que já tenha atingido alguma espécie de maturidade por seus 30 anos de carreira musical? É necessário um longo período de maturação da forma de tocar para maximizar a criatividade e chegar ao que chamamos de estilo?

Com certeza me sinto mais maduro hoje do que 10 anos atrás. O tempo moldou o meu estilo musical e a minha pessoa. Acontece que estou sempre buscando o que gosto de fazer, de criar, através de shows, discos, parcerias, viagens, no dia a dia com a família e os amigos, para conseguir sintetizar todas essas informações e ter um resultado artístico fluente e verdadeiro. Com o tempo, você aprende a peneirar aquilo que pode somar e deixar pra lá aquilo que atrapalha.



-- Li em uma recente entrevista no qual você diz algo sobre a importância da intimidade com o instrumento. O quanto desta intimidade é fruto de uma crescente intimidade consigo mesmo? O caminho em direção a fraseados mais simples é realizado pensando nisso ou é apenas uma consequência da exploração musical e interior?

O importante nesta questão é a soma da técnica com o sentimento. Quanto mais intimidade técnica você tem com o instrumento, fica mais fácil você expressar suas ideias e sentimentos. Sobre a intimidade comigo mesmo que você cita na questão, já fico sozinho o bastante em quartos de hotel. Gosto mesmo é de estar entre amigos, com a família. A solidão é importante, mas não é o que mais gosto. Não faço música só pra mim, faço pra me encontrar com as pessoas.

-- No trabalho em grupo, a aproximação entre os músicos contribui para suas composições?

Eu acho que sim. Nos meus trabalhos, isso faz diferença. Já vi grupos tocarem muito bem e depois descobri que não havia nenhuma ligação afetiva entre os músicos. Isso existe; não no meu caso.

-- Existe alguma diferença no approach/abordagem quando se mudam as formações da banda? O álbum “Brasilianos 3” tem diferenças em relação aos trabalhos anteriores?

Existem duas diferenças: a personalidade de cada músico influencia diretamente no resultado do trabalho, e claro, que tipo de instrumento cada um toca. Minhas decisões na hora de fazer um trabalho são tomadas em função dessas variantes, sempre buscando o máximo que pode ser feito por cada um e por cada instrumento, respeitando e trabalhando lado a lado com as peculiaridades de cada um.

-- A reinvenção na sua forma de tocar bandolim influenciou a forma como compõe?

Influenciou completamente. Eu sempre faço algo que tenha um sentido musical, que passe por acordes e ritmos que possam emocionar o ouvinte, o espectador, mas sempre com um toque do desafio, de encontrar algo que ainda não fiz. Nesse último ano tenho pensado também como contribuir mais ativamente para a evolução do bandolim, então tenho composto música-estudo. Fiz uma série de Caprichos, inspirado em Paganini. Músicas que, além de músicas, são estudos, e se eu não disser que são estudos, as pessoas nem vão perceber.

-- Você cita como influências suas desde grandes músicos até pintores e escritores. Como essas artes e artistas influenciam sua obra?

Na verdade, qualquer acontecimento da vida me influencia, a antena está ligada 24 horas por dia. Vejo um quadro e me transporto, o mesmo acontece com um filme, um livro. É muito bom compor após o impacto que uma obra causa em minha mente, em meu coração. É uma maneira de me comunicar com a alma das pessoas.

-- Quais direções você acha que se encaminhará sua vida e os próximos trabalhos?

Também gostaria de ter essa resposta, mas minha bola de cristal é muito turva, não consigo ver com precisão o meu futuro. E gosto que seja assim. Quando decidi ser músico profissional, sabia que seria assim, cada dia uma nova história, e todas elas interligadas com o passado e com o futuro. O que me resta é viver e agradecer.

-- Qual limitação mais te ensinou e te levou mais longe na sua vida de músico?

Tocar bandolim!



Vídeo com Hamilton de Holanda:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=vGfXYGFSgsk - Hamilton de Holanda Quinteto - Saudade do Rio (H. de Holanda) - Instrumental SESC Brasil



Entrevista realizada por Caio Garrido

terça-feira, 17 de julho de 2012

Kurt Rosenwinkel – Inovação sem mistério

Quando um secreto mundo revela-se “abaixo de nossos pés”, atrás de nossos pensamentos, ou fora de nossa órbita ocular, aparece uma nova margem de limites, antes não perceptível ao nosso senso comum.

“Our Secret World” é um postulado à possibilidade da eterna exploração de ideias. No caso aqui, ideias musicais que envolvem os ouvintes de Kurt Rosenwinkel.

Kurt e seu álbum inovador de 2010, junto à orquestra OJM de Matosinhos/Portugal, explodem vibrações sinestésicas que transcendem o modo tradicional de se tocar jazz. Sendo um dos principais expoentes do jazz contemporâneo, ele não vira a cara para reverbs, delays, ou distorções sutis em sua guitarra. Tem na prática do conjunto a principal expressão da magnitude possível da criatividade individual.


Com uma alta dose de melodia, harmonia e texturas bem desenvolvidas, o secreto mundo de Kurt vem à tona, natural e descompromissado, tal como seu modo de tocar.



http://www.youtube.com/watch?v=aiw8CTK2o_Q&feature=player_embedded


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

João Viana – Expandindo o legado


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Independente de ser filho de Djavan, o que percebemos ao ouvir esse músico de nome próprio João, e segundo nome Viana – reitero o nome devido à magnitude de seu tocar – é uma música singular e de identidade própria.

Atuando desde 1994, João Viana é um grande instrumentista brasileiro que vem amadurecendo dia a dia, depois de já ter participado de trabalhos com grandes nomes da música brasileira e do mundo, no estúdio e em shows, como Cássia Eller, Pedro Mariano, Nando Reis, Leila Pinheiro, Djavan, Fábio Júnior, Max Viana, Moska, Monique Kessous, Francisca Valenzuela, e muitos outros.

Conversei com ele durante sua passagem por São Paulo, na turnê em companhia de Paulinho Moska, que não por acaso o recrutou como baterista. Através desta turnê, João mostra todo seu trato linguístico de tocar. É sempre uma surpresa cada vez que o vemos no palco com sua Yamaha. É um repertório de ideias, viradas, dinâmicas, intensidades, que com simplicidade, sempre somam a música. E na música, como na conversa, cada "comunicação" acrescenta à outra.

Durante o show de turnê do CD “Muito Pouco” de Moska, João Viana consegue mais uma vez mostrar o bom gosto musical e escolha dos timbres de sua bateria. Tem a sabedoria em orquestrar seus arranjos – sempre se afinando aos arranjos do grupo – para impulsionar fôlego e vigor para as músicas, provando que um show é um encontro.


-- Como foi seu começo na bateria?

O meu interesse pela bateria começou de modo bem parecido com o de todos os bateras que a gente conhece por aí, batucando em panelas, na mesa, quando eu tinha uns 7, 8 anos. Quando eu tinha 9 anos, meu irmão mais velho, Max Viana, montou uma banda (a primeira banda dele) chamada Mitra, uma banda de rock, no Rio de Janeiro. Eles ensaiavam em casa. E a bateria ficava montada lá. Uma “Pinguim” cheia de pratos, com um “Paiste” vermelho! Eu ficava impressionado, maluco com aquilo. Foi ali que eu comecei a sentar na bateria e já fazer algumas levadinhas, tudo de ouvido. Mas eu só fui ganhar a minha primeira bateria aos 12 anos. Foi aí que comecei a ter aulas com o Carlos Bala. E fiquei tendo aulas com ele por muito tempo, mas sempre no esquema de uma vez por mês, pois na época, os artistas faziam turnês gigantescas e, além disso, quando ele estava no Rio ele tinha milhões de gravações. De vez em quando conseguia ter aulas quinzenalmente. Era sempre muito proveitoso. Toda a minha base está ali naquelas aulas que tive com ele. Eu lembro que às vezes a gente nem sentava na bateria. Ele me contava histórias de gravações, de como solucionou algumas situações na estrada. Ele fazia eu me dedicar aos estudos na borracha, passava pelos exercícios técnicos obrigatórios, rudimentos. Mas na época eu era apaixonado por futebol, tudo que eu queria era jogar bola. Eu ia para aula dele já com a chuteira e o meião na bolsa. E muitas vezes ele me dava aquele puxão de orelha: “Pô, João, concentra aqui na aula, sei que você está louco pra ir jogar bola.” Eu vivia na dividida entre essas duas paixões, mas graças a Deus a bateria é que falou mais forte.

-- Ainda sobre o Carlos Bala, o que ele mudou na sua maneira de pensar a bateria e no seu jeito de tocar?

O leque de opções e ensinamentos que o Bala me deu, foram a disciplina e o profissionalismo. Tecnicamente falando, sempre buscar o melhor timbre, tocar sempre da forma mais relaxada, dar o mínimo de esforço ao corpo, e conseguir fazer as coisas soarem bem. Ele é um mestre pra mim, um mestre para todos nós. Sem contar as aulas, só de ver ele tocando ou gravando já era um grande aprendizado; Ficar de olho nos shows, gravações, na época que ele tocava com meu pai. Eu ficava de olho nele o dia inteiro, aquela coisa de pupilo mesmo. Então acho que na minha forma de tocar é inegável que tenha ali contida várias informações que eu peguei com ele. Tenho essa influência forte dele, mas por outro lado ele sempre me orientou a procurar a minha marca, a minha assinatura, e hoje eu posso te afirmar que a maior dádiva que um músico pode ter é ter a sua assinatura, é aquela coisa de você ouvir a música no rádio e saber quem está tocando. Isso não tem preço, porque milhões de outras coisas estão aí para quem quiser, como por exemplo a técnica; O cara pode ficar cinco horas por dia e ter uma super velocidade, com um domínio absurdo. Não existe dom para a técnica, existe dedicação. Mas para você ter a sua assinatura, é aí que vem o diferencial. A minha maior busca está aí, em achar uma assinatura. O maior elogio que você pode me fazer é você virar pra mim e me dizer que ouviu um negócio que é a "sua cara", que deixou sua marca ali naquela música. Num mundo lotado de músicos talentosos, o diferencial está em você ter esse diferencial.

-- E você estuda ou estudou muitas horas por dia?

Sim. Realmente eu tive uma rotina de estudos bem intensa. Eu abdiquei de muita coisa para ficar madrugada adentro estudando, pesquisando muito, fazendo o que todo mundo tem que saber em determinado momento da vida. Alguns fazem pra sempre, conseguem manter essa rotina. Hoje eu não consigo manter uma rotina fixa de estudos, mas hoje o meu estudo é voltado mais para pesquisas do que para rudimentos, caixa… Eu não consigo mais ter essa disciplina. Até porque agora, morando em apartamento, não tenho bateria em casa. Para manter o contato com a bateria é só na estrada, quando vou dar aula, ou no estúdio. Por isso eu procuro chegar antes na passagem de som em shows, para assim eu ter algum contato com o instrumento. Mas constantemente eu pesquiso muito os bateristas, as novidades de equipamentos, timbres, etc.

-- Como foi a relação com seu pai nesse aprendizado? Como foi quando gravou o primeiro disco com ele?

É evidente, não dá para negar, que um dia, se tudo corresse bem eu iria tocar com meu pai. Só que foi muito importante para mim, ter passado por outros artistas antes. Isso me deu uma base muito boa e mais segurança quando eu cheguei para tocar com meu pai, na primeira turnê, do CD Milagreiro. Na época, a Cássia Eller tinha acabado de falecer e eu ainda estava muito mexido com aquilo, a Cássia foi um marco na minha vida. O início das gravações foi um pouco complicado, pela questão de duas formas diferentes de trabalhar. A Cássia gostava de deixar a coisa bem solta, e o Djavan gosta de deixar tudo bem mais amarrado. Meu pai aplica aquela coisa de que menos é mais. Você consegue perceber uma diferença bem grande entre o primeiro disco que eu gravei com ele, até o último, o disco “Matizes”. No início ele me transformou num executor. No “Matizes” eu pude realmente experimentar várias coisas, influenciar a música. Meu pai é um artista com quem todo mundo quer tocar. E eu sendo filho, não é diferente. Eu, nesse caso, antes de ser filho, sou músico. E como músico, eu ouço aquilo tudo e falo “Que som! Quero tocar também esse som”. Mas tudo veio na hora certa, depois de eu ter tido uma boa experiência com outros artistas.

-- Além da questão da bateria, como funcionou essa relação musical com o Djavan no seu crescimento como músico e pessoa?

Sempre ouvia muita música, fui muito eclético. Sempre prestei atenção nele tocando violão. Sempre fiz questão de ir aos estúdios, observar, ver como as pessoas entendiam a música dele. Sempre conversei muito com ele, e tudo isso facilitou muito, me dando vivência musical.

-- Me parece que estar na banda de Cássia Eller era como estar numa família. Quais são suas lembranças dessa fase?

Era uma banda mesmo. A Cássia era como se fosse a vocalista da banda. Não tinha aquelas coisas de praxe de artista, como por exemplo, um carro ou um camarim pra banda e outro carro e outro camarim para o artista. Ela nunca gostou disso. Ela queria estar junto de todos, ir à praia, jogar baralho. Ela sempre foi muito ‘família’, ao mesmo tempo mãezona, filha, irmã, amiga, enfim, uma pessoa sensacional, uma artista fenomenal, hiper musical. Ela gostava muito de música. Nas passagens de som, ela tocava baixo, bateria… Só tenho lembranças maravilhosas de shows, momentos no palco, como olhares, coisas íntimas, de sintonia, coisas únicas, que aconteciam com freqüência entre nós. Nós conseguimos uma química muito forte.


-- Quais são suas maiores influências na música e na bateria?

A primeira resposta que me vem à cabeça é Beatles. Na década da existência da banda, eles conseguiram adiantar muitas tendências que estariam por vir. É como se já tivessem apresentado uma novidade que estaria por vir, só que anos e anos antes. Novidades em termos melódicos, em termos harmônicos, por mais simples que fossem; Os ritmos: O Ringo Starr era um baterista moderníssimo para a época. Fazia levadas totalmente imprevisíveis.
Além disso, a MPB, que vivenciei muito, por ter visto nossos grandes mestres de perto, pela convivência deles com meu pai; A música africana, a música americana, inglesa. Em casa, na época do vinil, meu pai sempre ouviu de tudo um pouco. Eu também ouvi muito rock, gosto muito de rock’n’ roll. É uma grande influência pra mim. Talvez seja o tipo de música que mais me contagia – não exatamente a que mais gosto – mas a que mais me contagia.
Quanto aos bateras, gosto de A a Z. De diferente, dos bateristas que estão me influenciando hoje, tem os bateras de gospel dos EUA, Eric Moore, Aaron Spears, Tony Royster Jr. – embora caberia uma crítica, de que eles tocam mais ou menos igual. Mas eu tenho gostado muito do Eric Harland, batera de Jazz, Karim Ziad, baterista árabe excepcional, ultradiferente, e Jojo Mayer. Sempre vou gostar dos mestres, como Vinnie Colaiuta, Steve Gadd, Omar Hakim, Marcus Baylor, Will Kennedy do Yellowjackets. Aqui no Brasil, Carlos Bala, Márcio Bahia, Téo Lima, Cesinha. Cesinha é um batera essencial na minha carreira, por tudo o que ele já me disse, por ter estado presente nos shows que ele fez desde a época com o Caetano, Marisa Monte, agora com a Vanessa da Mata. Tudo o que ele fez eu acompanhei. Ele é um cara que sempre me ajudou e incentivou, que tem uma linguagem que gosto muito, e que aplica muito bem essa linguagem da simplicidade, de tocar para a música, com precisão, com som bom. Tem também o Pupilo, que é um cara fantástico. É muito bom ter um cara como ele na nossa música. Tem o Edu Ribeiro, Cássio Cunha. O Brasil está muito bem servido. E eu não me influencio só pelos bateras não. Ouço os baixistas, pianistas, que você pode aproveitar uma melodia, para criar um fraseado, para recriar uma melodia.


-- O seu tempo musical tem uma coisa única e precisa, que passa para quem ouve uma elegância ao tocar e um grande controle do que está fazendo. Qual é o segredo para manter essa constância de "respiração" musical, nessa quase fusionalidade com o tempo? Você usa aquele tipo de recurso de olhar para os próprios movimentos do corpo para conseguir “estar” no tempo?

Isso é um recurso muito bom para você pensar no andamento, para conseguir manter um padrão. Porque ninguém é máquina. Ou você toca com o click, ou você vai ter que respeitar o fato de que você não é uma máquina, e que vai ter uma pequena oscilação na música, o que é super bem vindo, pois a música não nasceu para ser estática. A música nasceu para evoluir junto com a canção, evoluir dentro dela mesma. Ou seja, você vai para o refrão, a coisa anda um pouquinho, depois você volta... Você tem uma dinâmica, e depois vai tudo lá “embaixo”... É inevitável e bem vindo que de repente o andamento caia um “pontinho”, dois “pontinhos”, e se não for nada grotesco, é bem vindo para a música. E aquela coisa que após tocar tanto tempo com click, em turnês com loops, eletrônicos, etc., estou gostando muito de identificar isso, de como é prazeroso quando isso acontece com a música. Mas para você manter um padrão, independente do click, tem uma coisa que aprendi com um amigo meu que é memorizar o tempo de uma nota para outra, como por exemplo, qual é a distância do bumbo para chegar à nota da caixa. Se você prestar atenção, você começa a memorizar e interiorizar o tempo de duração de uma nota pra outra. E olhando para seus próprios movimentos, você consegue perceber se está mais rápido no contratempo do que estava antes, por exemplo. Isso é um bom exercício, começar a prestar bastante atenção nisso. Isso te dá uma boa noção de andamento, relaxamento. E o andamento tem a ver com o estar relaxado também. Se você está todo tenso a tendência é correr, oscilar muito. Então quanto mais relaxado você toca, acho que facilita em tudo, A bateria é um instrumento muito braçal, então tem que haver uma economia nos movimentos.

-- Ainda olhando para este horizonte, o diferencial de energia que você usa ao tocar, com uma certa plasticidade de 'movimentos', é uma das coisas que faz criar um alto-relevo de sua singularidade?

Acho que sim, mas acho que mais do que isso, tem a ver com uma questão de personalidade. Sou um cara calmo. A gente é o que a gente toca, a gente toca o que a gente é. Então eu procuro usar essa calma na hora de tocar. Mas não foi sempre assim. Já fui um baterista ansioso, que queria tocar todas as notas. Mas eu descobri cedo que o que mais importa é a música. A gente não pode querer ganhar da música. Músico nenhum pode querer ganhar da música. Você está a serviço dela, e não ela que está a seu serviço.

-- Quais são os critérios que você utiliza para a escolha e variação de timbres do seu kit, dependendo de qual gig você vai estar?

Como eu não consigo mais ter uma rotina de estudos, a forma que eu encontrei de tentar me reinventar, foi fazer mudanças, me obrigando a tocar de uma forma diferente em função do kit. Se eu for gravar um disco inteiro de alguém, é muito difícil eu ir da primeira música até a última com a mesma formação. Vou variar os tambores, os pratos, as caixas, as afinações. É uma coisa que me dá prazer. Eu gosto de chegar cedo às passagens de som, quando é um dia que estou a fim de fazer. Eu gosto de mexer. É uma forma de você tocar um pouco diferente em determinada noite, por exemplo. Uma coisa que gosto de fazer é inverter os tambores. A mesma virada que você faz há muito tempo, com essas variações de tambores, já vai fazê-la soar diferente. Eu já vou fazer 20 anos de carreira, então é preciso variar para manter a coisa viva, fresca.

-- Como está sendo o novo trabalho e turnê com o Paulinho Moska?

O Moska é um grande amigo, de longa data, desde a minha adolescência. Ele acompanhou o meu início profissional. Sempre gostei muito do trabalho dele. Estou agora entrando no quarto ano com ele. Gosto muito de sua obra, ele é um artista muito tranqüilo, que dá liberdade para trabalhar. Quer te ouvir, ouvir suas ideias.

-- No show com o Moska, percebi que você consegue acrescentar muito ao som dele e da banda, com seu modo de tocar. Como você cria essa consonância para potencializar e "compor" uma nova orquestração de arranjo com a banda em um show?

Primeiramente, eu escolho coisas que não podem mudar; que aquela música precisa daquela “coisa”. Aí separo essas coisas num grupo. Todo show você vai me ver fazendo aquelas coisas. E deixo e gosto que tenha um espaço para um improviso, uma vez que você já conhece tão bem aquelas músicas, que aí você se dá o direito de acrescentar uma coisa ou outra. Tem dias que não se tem muitas ideias, mas tem dias que estão fervilhando ideias. Cada baterista tem seu conceito. Este é meu conceito. Eu gosto de manter coisas que fazem bem à música. E é ideal saber que os outros músicos que estão tocando com você também tem conceitos parecidos, e vão querer aplicá-los. E aí a coisa começa a fluir de uma forma bem mais tranqüila.

-- Você está gravando um projeto pessoal no momento, certo? Quais as influências e expectativas em relação a ele? Seria um rito de passagem para você?

Estou gravando um disco meu desde 2009. Começou só como um registro de minhas músicas. Não é nada instrumental, é cantado (eu mesmo canto). Em função dos compromissos com os artistas, acaba que fica sempre para depois. E sem apoio, o projeto acaba sendo adiado. O trabalho não tem pretensão de me lançar, não tem pretensão de nada. É para enriquecer minha carreira. Estou gravando a bateria, os violões, as programações. As músicas são minhas com muitas parcerias. Mas, sinceramente, o que eu quero é o disco pronto, não me preocupo com o que virá depois, se terá shows ou não... As influências vêm de tudo que já ouvi e toquei, do rock’n’ roll à bossa nova. Mas nada impediria que no futuro se tornasse meu projeto principal, por exemplo. Não dá para saber. A vida é imprevisível.


-- Como você vê a música e seu cenário nos dias de hoje? O que você espera da música no futuro?

Eu procuro ser muito sincero. Está muito ruim. Está ruim não porque existam gêneros musicais que estejam predominando. Tem que ter todo tipo de gênero. Mas tem que ter pra todo mundo. E esse é o problema. Não está tendo para todo mundo. Não está tendo espaço para todos. Eu não quero que o Luan Santana deixe de ganhar milhões e deixe de fazer 25 shows por mês. Quero que ele tenha esse espaço também. O problema é quando ‘ele’ é o resultado da má distribuição de possibilidades dentro da nossa cultura. Isso está ficando insuportável. Por que ele tem que ter este acesso irrestrito, enquanto outros artistas estão numa batalha intensa e não conseguem nem uma agenda fixa de shows? É isso que precisa ser repensado. Se você me perguntar como é que isso pode ser mudado, eu não saberia te dizer, e para ser sincero, não vejo mudança a curto prazo. Se tiver alguma mudança, vai demorar muito tempo, pois o tipo de música que ‘ele’ faz gera muito dinheiro também. Mas a cultura está se perdendo de uma forma geral. Se alguém pega uma música ruim, e a coloca para tocar 40 vezes por dia na rádio, até eu saio cantando. Quando meu filho começa a ouvir isso, eu tenho que redobrar a carga de Beatles, de MPB, o que graças a Deus ele gosta também. Quando você coloca uma música ruim tocando 40 vezes ao dia, aquilo vende horrores. Então porque não fazer isso com música boa também? Vai acontecer o mesmo. Vai haver espaço novamente para os grandes artistas. Coloque música boa 40 vezes ao dia e aquilo vai se refletir em vendas, em shows. O direcionamento da cultura está errado. Em algum momento teremos que refletir sobre isso. A forma como estão lidando com a nossa cultura precisa ser revisada. Tom Jobim deve estar se revirando, se remoendo no túmulo. E isso refletiu muito na minha carreira, na carreira de qualquer músico acompanhante. Eu toco com determinado segmento de artistas que sofreu muito com isso, artistas que sofreram muito com essa baixa na cultura. Ficou ruim para todo mundo.

-- Tem dias na sua vida que você consegue não pensar em música? É possível ser feliz sem música?

Eu procuro às vezes não pensar em música, como qualquer outro profissional, que precisa de um descanso e apreciar outras coisas. Acho saudável. Não acho ser possível viver sem música. O que faz a musica ser o que ela é, é que o ser humano pode passar a vida inteira sem ler um livro, sem ir ao cinema, etc., mas você não vai conhecer ninguém que passe a vida inteira sem música. Mesmo que você não queira, a música vai estar ao seu lado, ela vai passar por você. E a música esta dentro de nós. Todos têm aquela música que traz lembranças. A música faz você ver um filme inteiro na sua frente, faz você se recordar de coisas que estão guardadas lá no fundo. Ela tem esse poder.


.* João Viana agradece à Vic Firth, Soultone, Yamaha e Evans.


Links e Vídeos com João Viana:

http://www.youtube.com/watch?v=bRy24iKS4LA&feature=related
– Trechos de músicas do show com Moska – Sesc Pompéia



http://www.youtube.com/watch?v=GjC1aZZtK-U&feature=related
– João Viana em estúdio
http://www.youtube.com/watch?v=LriM7tYfsFM&feature=related
– João Viana – Túnel do tempo
http://www.youtube.com/watch?v=Y8iQOag5zKg&feature=related
- Tributo a Cássia Eller - Maceió-bastidores

http://www.joaoviana.com.br/#!vídeo

http://www.joaoviana.com.br/#!áudio
– Prévia do single “Sixteen” do seu primeiro trabalho a ser lançado.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Entrevista - Thiago "Big" Rabello - Rev. Modern Drummer Jan/2012




Olá pessoal,

A revista Modern Drummer de Janeiro/2012 vem com muitas novidades, entre elas uma entrevista que fiz com o baterista Thiago Big Rabello.

A seguir, um pequeno trecho, e mais informações no link:

http://www.moderndrummer.com.br/?area=materia&colid=6&matid=136


Thiago “Big” Rabello, baterista e produtor, é um daqueles músicos que atravessam as intrincadas “vilas” musicais, fazendo o complexo parecer simples. Através desta entrevista dada à MD, ele prova que para a música soar bonita e complexa, deve haver uma transparente naturalidade nos estudos, gravações e shows. Tudo em sintonia com o resto da banda, com um mix de vínculo musical e pessoal.



Isso é mostrado particularmente nos projetos em que ele está envolvido no momento, que vai desde a bem sucedida gig com a cantora Dani Gurgel, que atravessa um merecido sucesso na cena da boa música, até gravações com artistas que vão de um extremo a outro em termos de estilos musicais.



Essa naturalidade vem de sua descendência musical. Incentivado pelo pai Luiz Rabello, começou a tocar aos 12 anos de idade. Vamos então à simples versatilidade de um músico que torna a bateria contemporânea mais visual e gostosa de seu ouvir.

MD: Olá Thiago, em quais projetos você está envolvido no momento?



Thiago “Big” Rabello: Eu faço de tudo um pouco. Além dos discos da Dani Gurgel, Ana Cañas e Tatiana Parra, também gravei recentemente no disco novo do Pedro Mariano, com quem estou fazendo shows. Gravei o DVD comemorativo de 40 anos do Chitãozinho & Xororó (Nova Geração), Luan Santana, João Bosco e Vinicius. Acabo de gravar o disco do Filipe Catto e estou produzindo, no meu estúdio, um projeto pessoal que se chama "Coletivo Urbano", que é um mix de artistas independentes de vários estilos que moram em São Paulo.

MD: Nos projetos que você atua, há uma grande mistura tanto da música brasileira com o lado jazzístico, como com o pop também. Na composição dos arranjos da bateria, qual é o seu principal papel?
Complementar texturas, criar um ritmo que encabece a organização principal de uma composição, enfim qual o seu grau de envolvimento na criação dos arranjos e da produção final?


Thiago “Big” Rabello: Minha maior preocupação é deixar a música fluir. Toco para a música e para o conjunto, nunca para a bateria em si.

MD: Você tem algum outro estilo musical que já tenha tocado e que gostaria de tocar um dia novamente?


Thiago “Big” Rabello: Meu dia a dia é bem variado. Não tenho um estilo preferido, mas recentemente comecei dois projetos instrumentais, que era algo que não tocava fazia tempo. Um é o trio do Cesar Camargo Mariano, com quem toquei no Goyaz Jazz Festival, em janeiro (2011), e o outro é o disco da Débora Gurgel.

MD:
Você acha que a disposição das peças do kit da bateria, como os tons, por exemplo, pode determinar uma melhor performance do baterista, ou o baterista de alto nível deve ter a vocação para tocar em qualquer tipo de kit a qualquer momento?



Thiago “Big” Rabello: Acredito que a postura do baterista e a maneira de montar o kit fazem o rendimento aumentar mil por cento. É muito difícil "dar canjas" e tocar em qualquer kit que não seja o seu – você acaba não rendendo como renderia se estivesse com seu kit.

MD: Polirritmia e ritmos quebrados fazem parte de seu dia a dia. Além de você dar vários dribles com o seu tocar, que ritmos já te deram muitas rasteiras?

Thiago “Big” Rabello: Todo ritmo tem a sua dificuldade. Meu maior desafio é fazer com que todos eles soem simples. A maior rasteira que tomo é quando acerto a técnica, mas não sai natural.


Continua na edição 110 - jan/2012...









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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Adriana Godoy- "Marco" - Resenha



Não só o nome do novo cd de Adriana Godoy é “Marco”, como todo o enfrentamento musical presente na voz, composições e arranjos do disco também o são.



Disco bom é aquele que dá vontade de sair cantando ou tocando. E é o que acontece com este CD, que traz também Débora Gurgel dividindo a produção. Adriana, citada por Débora como pura emoção, não traz essa vocação por acaso. Filha do maestro e compositor Adylson Godoy e da cantora Silvia Maria, iniciou sua vida musicista estudando piano para depois descobrir seu verdadeiro instrumento, a voz. De lá para cá, desenvolveu sua personalidade artística, trabalhando em projetos com importantes nomes da música brasileira, entre eles, Filó Machado, que também presenteia os ouvintes como convidado neste novo CD.





Adriana, além de ser dona de uma voz que desenha inconfundíveis letras e notas no ar, é extremamente generosa com os músicos que a acompanham, dando liberdade e deixando tocar…




Destaque para as músicas "Outras notícias da Praça Central" e "Vento Bravo"


Links e vídeos:
http://www.myspace.com/adrianagodoy


http://www.adrianagodoy.com.br/


http://www.youtube.com/watch?v=ggG8FY3bBlY - Adriana Godoy - Video Release - CD Marco (EPK)

http://www.youtube.com/watch?v=febyVKeHDUE&feature=related - Preta Porte de Tafeta, Adriana Godoy, lançamento do CD MARCO (julho 2010)


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Rodrigo Digão Braz – Improvisando na vida e na música




Entrevistei Digão pela primeira vez em 2009 para o blog Música Contemporânea. Agora, recentemente, tive a feliz oportunidade de continuidade do papo abrangendo ainda mais a questão da improvisação. Fato que me deixou extremamente contente, pois sem dúvida foi uma das entrevistas mais satisfatórias e emocionantes que já realizei com alguém, pela generosidade, disponibilidade e transparência que o Digão proporcionou ao abrir os calabouços de seus pensamentos de vida e música. Um presente;



Para quem não viu a primeira entrevista ou o que seria a primeira parte de um todo, vai aqui o link:







Vamos à matéria completa desta “segunda” parte:



Improvisar é algo que não se aprende na escola. Na música, essa lei é ainda mais presente. Rodrigo Digão Braz leva ao pé da letra esse aprendizado (ou não-aprendizado). Baterista e percussionista, tem como projeto principal o grupo "Mente Clara", que traz como base a estética da "Música Universal" de Hermeto Pascoal. É também professor do Conservatório de Tatuí, e já tocou com nomes como Renato Consorte, Ai Yazaki (pianista Japonesa), Michel Leme, Thiago Righi e Fernando Corrêa.



Vamos à entrevista:


-- Música improvisada, para ser notada em toda sua intensidade, tem a singularidade de "dever" ser vista e ouvida ao vivo?

Caro Caio, primeiro quero agradecer mais uma vez pelo convite para essa entrevista e dizer que sua coluna (blog) é de muita valia para o desenvolvimento da música brasileira no Brasil (por incrível que pareça, precisamos desbravar a nossa música em nosso país) e desta para o mundo. Quanto à pergunta, não necessariamente. Mas é claro que sua particularidade vivenciada na hora da criação é uma coisa mágica, trazendo sensações tão peculiares aos ouvintes que talvez em um novo momento não se manifeste. Entretanto, nós músicos – ou meros ouvintes (muitas vezes os melhores ouvintes, pois estes vão para ouvir a música sem nenhum rótulo ou pré conceito) – também somos pesquisadores, e sua análise posterior (no caso, de uma gravação) é muito válida para entendermos os caminhos que grandes compositores e improvisadores estão "trilhando" dentro da música apresentada.

-- Como foi a trajetória musical em sua vida?

Eu comecei tocando piano (fui obrigado, felizmente, pela minha mãe, Dona Lourdes ou Lurdinha). Também fiz aulas de violão, mas os estudos de música começaram a ficar sérios aos 15 anos, quando ingressei no curso de Música da Fundação das Artes de São Caetano do Sul, agora tocando bateria. O fato engraçado é que mesmo na Fundação, eu ainda estava sendo obrigado a estudar música, pois nesse período eu tinha como meta na minha formação profissional a engenharia – nesta fase, eu estudava Mecatrônica em um colégio técnico. Com 17 anos eu tive a minha decisão, optando por essa arte que faz de mim uma pessoa mais feliz e ao mesmo tempo me demonstra sabedoria para o meu autoconhecimento. Desde então, meus projetos musicais foram voltados para o desenvolvimento da criação (música própria), e tudo isso conciliado com trabalhos com cantores e artistas em geral. Aos 20 anos, cursando meu último ano de Fundação, fui para o Conservatório Dramático Carlos de Campos Tatuí, onde estudei por um ano e meio, e desde 2001 leciono no curso de Bateria e Percussão Complementar.

-- Quais são seus projetos atuais?


Meus projetos atuais: Tenho um grupo, que já tem 11 anos, chamado Mente Clara, com dois discos gravados, o homônimo Mente Clara e São Benedito; O Trio Paulista. Este foi devido a uma necessidade de espaço, já que é base do grupo Mente Clara, com Franco Lorenzon e Fábio Leal. Inclusive estamos com um projeto chamado ‘Trio Paulista Convida’, uma vez por mês na casa Jazz nos Fundos, em São Paulo, onde tivemos na primeira noite o conceituado Fernando Corrêa (Guitarra) e ainda teremos André Marques (Piano) em outubro de 2011 e Fábio Torres (piano) em novembro de 2011; Outro trabalho interessante é um trio que tenho com Hercules Gomes (Piano) e Rafael Abdalla (Baixo acústico) com composições de todos os integrantes. Nesse repertório, apresento composições minhas, inéditas, e alguns arranjos de Standards de jazz. Dentro disso, também tenho feito trabalhos bem interessantes como instrumentista, a exemplo da cantora Nanny Soul, com arranjos e direção musical de um grande amigo e ótimo músico Paulio Celé, uma cantora americana chamada Alissa Sanders cantando Standards de jazz, a cantora nacional Patrícia Marx, um cantor que gosto muito da nova geração de compositores paulistas, Fábio Cadore, e uma grande craviolista, dona de uma das vozes mais belas e afinadas que já trabalhei. Ainda continuo com um trabalho maravilhoso (exaltando a natureza), com Tetê Espíndola.




-- Notei em seus solos, uma intensa atenção voltada para os timbres e principalmente para o timbre da caixa, que na maioria dos momentos fica sem o som da esteira, potencializando uma identidade e originalidades suas. Como é isso para você?


Realmente, uma das coisas que desenvolvi foi a minha identificação com timbres e melodias geradas a partir das afinações que os tambores estão nos oferecendo. Isso é tão forte no meu trabalho que é o mote das minhas aulas. Tem um caso interessante e ao mesmo tempo animador quando em uma das aulas eu chego para um grande amigo, músico e baterista Paulo Almeida, e digo: “Toque o parabéns pra você na bateria! Vamos, toque!!” Ele me disse que ficou em choque, pois o que eu queria dizer com isso: “toque o parabéns...”? Foi quando despertou para ele uma nova visão em cima desse instrumento que acompanha, mas ao mesmo tempo serve como intenção melódica, ou porque não harmônica dentro da música. Nos solos ou mesmo no acompanhamento, as intenções de novas possibilidades de timbres (ex, a caixa desligada, sem a esteira) vão surgindo conforme a "cor" que o som vem provocando naquele momento, e o baterista que cria a atenção para esses detalhes pode ter um certo destaque, deixando assim de assumir o papel primo de só conduzir o grupo.

-- Alguma vez você já sentiu que influenciou algum outro artista, que não músico?


Teve uma ocasião no Festival Painel Instrumental/Festival Paralelo, que uma amiga do teatro Larissa Bassoi me emocionou muito ao ver um show do Mente Clara. Ela chegou soluçando de tanto chorar e me dizendo: "Que coisa linda, eu consegui me reportar a lugares vividos os visualizar lugares inéditos... Foi tão bonita essa viagem, e isso me fez pensar em mil coisas que podem ser diferentes no cotidiano, situações e sensações novas, e outras resgatadas da minha infância... Enfim, adorei!"


Nesse dia, eu tive mais uma confirmação, de que a música tem um simbolismo muito forte, e quando entendida pode te levar a momentos quase eternos. Muito obrigado Larissa, pode ter certeza que você também me influenciou muito. Beijo grande pra Ti.

-- O que você acha dos músicos/bateristas "atletas" ou os acrobáticos? Qual a importância da "independência" para você?



Dou valor a qualquer manifestação de esforço no sentido da manutenção e obtenção de resultados para a melhoria de sua conduta pessoal, profissional, etc. Isso não foge à regra no caso de bateristas que pensam mais "tecnicamente" o seu instrumento. Mas como havia comentado antes, minha pré-disposição para entendimento desse conglomerado percussivo é melódica, portanto uso também dos artifícios técnicos como necessidade de minha resultante interpretativa e não como ponto de partida. Admiro bateristas como Mike Portnoy, Neil Peart, um brasileiro que gosto muito, Ricardo Confessori... E veja, são todos músicos que obtiveram seus resultados e mesmo assim não deixaram a música de lado. O que teve de diferente foi o ponto de partida.


-- Que elementos, ritmos, ou estilos musicais você tem vontade de incorporar pessoalmente em sua bateria, e também no "Mente Clara"?



Hoje me sinto feliz, mas não realizado, e sim muito feliz pelo o que tenho desenvolvido rítmico/melodicamente no meu instrumento. No terceiro disco do Mente Clara, iremos apresentar uma chacarera (ritmo argentino) que tem um dos seus mais expressivos representantes, internacionalmente falando, a saudosa cantora Mercedes Sosa (1935- 2009). Ultimamente, estou pesquisando um ritmo chamado Shaabi da região de Magreb, mais específico do Marrocos. Esses dois ritmos têm uma subdivisão ternária, diferentemente da maioria dos ritmos brasileiros que tem uma subdivisão binária. Ritmos como o Boi, Cururu, Fandango, Catira, são ritmos que tenho como meta a estilização, e assim usá-los com mais frequência na vertente instrumental.

-- Diga o que quiser sobre a música em notas musicais...

Outro dia postei uma música minha que saiu no primeiro disco do Mente Clara – Eli Ferreira dos Santos – e acredito que nesse som consigo falar algumas coisas de que sinto, neste caso, saudades, pois meu pai, que é falecido, e outras mais mostrando que a vida é bela e que podemos e somos felizes. Deixo aqui minha postagem pra quem quiser ouvir:




Um forte abraço e desejando tudo de bom para todos, tendo a certeza de que a arte nos molda para uma melhor convivência entre os seres (estou escrevendo isso com lágrimas nos olhos, pois a música me traz essa emoção toda vez que reflito sobre a mesma). Ow Glória!!







Link Eli Ferreira dos Santos - Rodrigo Digão Braz - Música gravada no primeiro disco do Grupo Mente Clara. Mente Clara é: Fábio Leal (Guitarra), Franco Lorenzon (Baixo), César Roversi (Saxofones), Beto Corrêa (Piano e Sanfona).
http://soundcloud.com/search?q%5Bfulltext%5D=eli+ferreira+dos+santos






terça-feira, 9 de agosto de 2011

Paulinho "Briga" Vieira - MBB - Memória da Bateria Brasileira



Dia 03 de agosto de 2011 se iniciou o Projeto MBB - Memória da Bateria Brasileira. Este evento, organizado por Thiago Carbonari, visa documentar os bateristas brasileiros que merecem sempre ser ouvidos e lembrados. Paulinho "Briga" Vieira de Ribeirão Preto, baterista que já realizou trabalhos com artistas como Djavan e Ivan Lins, foi o primeiro homenageado. Esta primeira edição contou com a participação dos bateristas Paulinho Vieira, Christiano Rocha, Vlad Rocha e Duda Lazarini, além das cantoras Adriana Godoy, Maysa Rizzatti Gomes, e Vania Lucas. Fizeram parte também da homenagem e som do dia, André Carbonari, Bruno Barbosa, Leandro Cunha e Bidinho.



Sobre Paulinho:
"Mineiro da cidade de Araxá, Paulinho 'Briga' Vieira já trabalhou com importantes nomes da música brasileira. Entre suas gravações mais importantes como baterista estão os discos 'Comissão de Frente', de João Bosco, em 1982; 'Novo Tempo', de Ivan Lins, em 1980; e 'Alumbramento', de Djavan, em 1980. Além disso, o músico gravou com Emílio Santiago, Zizi Possi e acompanhou as bandas de Zé Rodrix, Suvuca, Elza Soares e Cauby Peixoto."

bREVE: Videos do evento.

http://www.youtube.com/watch?v=1NuRNJX_kFM&feature=player_embedded-
Paulinho "Briga" VIeira no Workshop Vários Ritmos de um Mesmo Mundo no EM&T Jabaquara. Dia 26.04.11.

sábado, 18 de junho de 2011

Patrick Laplan e Eskimo - Uma nova maneira de ser do pop


Patrick Laplan, multi-instrumentista, produtor e compositor, acaba de lançar seu mais novo projeto: Eskimo. Além de ter tocado no grupo Los Hermanos, atuou como baixista do Biquini Cavadão por um bom tempo. Desde 2010 assumiu as baquetas na gravação do primeiro cd do Eskimo (Felicidade Interna Bruta), revelando uma faceta pouco conhecida para o grande público. Além de uma intensa criatividade, Patrick explora neste projeto todas as possibilidades de se experimentar com a música pop, usando atributos rítmicos de outros estilos musicais para compor uma obra extremamente original e singular. A bateria, não por acaso, é um dos principais destaques e ingredientes das músicas.


-- Nos conte um pouco de sua trajetória na música e em cada um dos instrumentos. O que veio primeiro, a bateria ou o contrabaixo?




A bateria. Aos onze, doze anos, migrei do videogame para a música. Aos treze, ganhei uma assustadora Roll Star. Hoje, certamente teria bom uso. O contrabaixo só viria uns cinco, seis anos depois, quando me chamaram pra tocar no Los Hermanos, e quando comecei a estudar com o Nico Assumpção. Mas nunca deixei de praticar bateria.





-- Quais fatores mais pesaram para motivar sua saída do Los Hermanos?



Ahh, a pergunta de 1 milhão de dólares…



-- Suas ideias e composições eram bem aceitas pelo grupo?





Eu ainda não era compositor na época. Quanto à ideias e arranjos, sim. O processo sempre foi muito aberto e democrático.




-- Como foi o processo de amadurecimento da ideia do que hoje se tornaram as músicas e o projeto do Eskimo? Desde quando vem sendo gestado o projeto?



Tão longo que os conceitos virariam de cabeça para baixo várias vezes. A gestação não foi do projeto, e sim da pessoa, de uma personalidade. E certamente houve muita insegurança minha em terminar o que seria o objeto que finalmente me definiria, pelo menos inicialmente. Agora eu acredito que alguém pode ouvir o disco e dizer que entendeu quem eu sou. Antes disso teve muita coisa da qual me orgulho muito, mas que não dizia tanto de mim. Não quero dizer que o F.I.B. (Felicidade Interna Bruta) disse tudo de mim, mas tudo o que foi dito, foi dito por mim. E ainda tem muita coisa a ser dita. O Eskimo começou calcado em colagens abruptas (a la Mr.Bungle e Beck), climas soturnos, com um quê minimalista, "brinquedinho". Por isso o Tim Burton com seu universo "Noiva Cadáver" sempre foi citado como referência. E com o tempo, fui deixando as letras e composições dominarem o conceito e se completarem naturalmente, instintivamente. Elas estariam amarradas pelo fato de terem brotado da mesma cabeça. A gravação começou no dia 2 de julho de 2009, e terminou em 30 de agosto de 2010. Parece muito tempo, mas para um disco praticamente feito em casa, por mim e meus amigos, não acho tanto. O processo todo está no diário de bordo do nosso site. É fácil de ver a paciência que eu tinha para descrever tudo no começo, e como o texto se torna mais monossilábico no final, de tão cansativo que foi.

-- Como foi tocar bateria neste disco? Foi algo que você sempre almejou, ou o baixo sempre foi o instrumento para o qual você se dedicou e se propôs a gravar e tocar?




Maravilhosamente tenso. Imagine um baterista conhecido como baixista, que nunca teve a oportunidade devida de gravar? Era uma coisa que eu devia pra mim mesmo, e foi essa sede que levei para gravar. Se fosse para ilustrar, eu diria que o baterista Patrick (nesse disco) foi o músico menos maduro dos Patrick´s. O produtor Patrick e os outros músicos Patrick´s meio que seguraram a onda para essa "criança" poder soltar os bichos. E só dessa maneira pode haver coesão. Essa explosão não deixa de ter sua beleza, e por isso eu permiti que isso acontecesse. Não estou dizendo que as baterias do disco são imaturas, mas comparativamente foram. (Que confusão de Patrick´s. Falar de mim na terceira pessoa é imperdoável). E foi tenso porque 95% dos arranjos de bateria foram memorizados nota por nota, e eram muitas as variações, viradas e detalhes, que fariam toda a diferença. E eu sabia que não me perdoaria se eu esquecesse alguma coisa. Exigiu muito do "HD interno". Viva a auto-sabotagem, a quebra de limites, e o auto terrorismo.

-- Você consideraria a sua bateria como um dos principais meios de interlocução para a composição das músicas do Eskimo?



Não. Com exceção de "À Deriva", que foi muito calcada na bateria, a idéia sempre foi ter todos os elementos brilhando ao mesmo tempo. Melodia e letra não tiveram prioridade com relação aos arranjos. Sempre tentei fazer com que todos os elementos pudessem estar funcionando no máximo de seu potencial em 100% do tempo.



-- Cada música do álbum traz seu próprio desdobramento musical, criando uma árvore genealógica de ritmos e sons possíveis. As influências foram importantes nesse processo, ou foi mais um libertar das influências estéticas musicais?



As influências afloram naturalmente. Não foi racional ou conceitual. Se você parar pra pensar nelas, é um passo pro plágio. É uma questão de fechar os olhos e se deixar levar. Registrar o resultado, e aprimorá-lo. Ou descartá-lo, e tentar de novo. Tudo que você viveu e ouviu a vida inteira acaba saindo pelos poros, quer você queira ou não. Então melhor nem pensar sobre isso. Faça mais, e deixe pros outros pensarem sobre o que você fez.

-- Como você costuma compor? Como se caracterizou a composição das músicas no Eskimo?



Não tem regra. Umas começam pela letra, outras pela melodia. Às vezes por um arranjo, um riff, uma batida... Tanto faz o instrumento. Tocar uma coisa que você não domina pode ser bom nesse caso. Você não tem a tendência instintiva de seguir um caminho que já conhece. Abre espaço para o inesperado.



-- Como foi e é a oportunidade de trabalhar como produtor, tocar baixo, guitarra, bateria, piano, organizar arranjos, etc.? Como é ter toda essa visão panorâmica, podendo ser a autoridade do próprio trabalho?



Foi um fardo. Literalmente. Muita responsabilidade, e poucos ombros pra dividir o peso. Achei que todo o processo seria muito prazeroso, mas não foi. Foi cansativo, demandou demais. Dividir é sempre bom. Inclusive as alegrias. Não foi uma opção pelo poder em termos de ego, e sim pela estética. Ninguém conseguirá swingar com você tão bem quanto você mesmo. Agora imagine uma banda inteira respirando totalmente junta? Como um só? Era essa a idéia. E acho que valeu a pena. Consegui o resultado que queria, mas não sei se teria gás pra fazer isso de novo. Deve ser como pular de moto de um prédio pra outro. Só depois que você faz, que tem ideia da "m...." que fez. E diz: "Nossa. Fiz uma parada muito maneira. Mas... Nossa! Como sou um imbecil de ter me jogado desse prédio". Como produtor, foi um dos poucos ângulos que valeu a pena. (novamente o caso dos mil Patrick´s). Você tem noção exata de todos os "pingos dos i´s" do disco. Facilita muito pra poder amarrar as ideias ou levá-las a extremos.

-- Quais foram e são suas principais influências na bateria?



A gente vai crescendo e mudando. Quando mais novo, eu gostava muito do Dave Abbruzzese, do Tim Alexander, Fish Fisher, Sim Cain e do Igor Cavalera. Os favoritos de hoje em dia são Matt Chamberlain, James Gadson, Rafael Barata, Jojo Mayer, Chris "Daddy" Dave, Abe Laboriel Jr., Chris Pennie, Homer Steinweiss, Deantoni Parks, Nate Smith, Pupilo, Jack Irons, Duda, Rafael Rocha, e as programações absurdas do Squarepusher.



-- Somar referências e influências nem sempre traz um bom resultado para quem deseja buscar um novo som. A ordem dos ritmos altera o resultado?



Muita gente tem medo de estudar por causa disso. Tem medo de aprender as regras e bitolar nelas. Informação não atrapalha. Conhecer as regras facilita você a quebrá-las. Imite. Assimile. Inove.



-- Você acha que a música pop hoje em dia ainda tem dificuldade de assimilar o pitoresco, a singularidade?



Acho a nova geração do pop preguiçosa e desrespeitosa. Não faz questão de pesquisar as raízes do que gosta, e não tem dor na consciência de copiar descaradamente, contanto que ninguém descubra. Isso em geral, porque existem poucas e boas exceções. Talvez por isso o alternativo/experimental dessa geração acaba sendo muito mais interessante. Com o passar de gerações é mais trabalhoso ser original. Os caminhos já foram explorados. Fica difícil chegar com uma super novidade. Mas é dever do artista tentar. Você não pode se sentir pleno usando uma frase feita de alguém. E a beleza está em deixar esse "seu" ir à tona, mesmo que pequeno. É o que me faz respeitar e gostar de um artista. Estar aberto à possibilidade de ser visto de verdade.



-- Como é a questão da relação baixo/bateria para você, já que consegue percorrer os dois caminhos com fluência?



Facilita muito. É ter o conhecimento absoluto do que a outra parte está tocando, de como ela respira e flexiona o tempo. Fica muito confortável pra criar uma unidade. É preciso ter cuidado pra não cobrar uma conexão tão grande quando se toca com qualquer outra pessoa. Você aprende a valorizar mais as diferenças.

-- E como serão os shows, você vai tocar bateria, baixo, outros instrumentos, ou um pouco de cada?

Seria difícil escolher, mas as circunstâncias facilitam. A princípio eu tocarei baixo apenas. Gostaria de ter a opção de trocar em certas músicas, mas pra isso precisaríamos de alguém com mais experiência no baixo. Todo mundo toca mais de um instrumento, mas o baixo é limitado. Temos Diego Laje na bateria e percussão, Dudu "Quindim" Miguens na guitarra, violão e percussão, Fabrizio Iorio no piano e acordeon, e Cauê Nardi na voz, violão e cavaquinho. Esse é o Eskimo em shows.

-- Para verdadeiramente nadar na música, é preciso saber se afogar às vezes?

Não acho preciso não, mas toda experiência traz conteúdo. E certamente é melhor morrer tentando, do que ficar de boinha no rasinho.







quarta-feira, 11 de maio de 2011

Bateristas da Música Instrumental Brasileira

É comum certas histórias serem contadas a partir do seu final. E essa não deverá ser diferente. Mas essa não tem final, pois é o que há de mais atual.









O que se vê na música instrumental brasileira hoje é de uma rara e peculiar forma de expressão. Usando de todos os nossos atributos rítmicos e musicais, os bateristas instrumentais dessa geração influenciam cada vez mais a maneira de se produzir música no país. Estão cada vez mais estendendo seus “campos de atuação”, saindo do mundo instrumental e imantando o campo da música popular, junto a cantores e artistas renomados. Na verdade, isso não é nenhuma novidade para grandes bateristas, que no passado também acompanharam grandes artistas, mas hoje eles estão perdendo o status de “fundo de palco”, e deixando de ser apenas vislumbres de focos alheios, alcançando assim maior evidência, fato fundamental para a vitalidade da boa música.


Quem não se encantou com figuras da nossa história baterística, como Cuca Teixeira gravando shows e CDs com Marina e Maria Rita, por exemplo? Quem já não se sentiu enlevado com a fina maneira de tocar de Edu Ribeiro em aparições junto à Yamandu Costa e Thiago do Espírito Santo? Quem já não sentiu os pêlos arrepiados do sovaco ao ouvir a orquestração particular de Ricardo Mosca junto ao Grupo Pau Brasil, reinventando Villa Lobos? Quem já não se sentiu arrebatado pela magia da envergadura sonora de Kiko Freitas junto a João Bosco? E o que dizer da união de influências de música brasileira, progressiva, na maneira única e com alta carga de emoção, no álbum Ritmismo de Christiano Rocha? Existe ainda a pegada rápida e funkeada de Vitor Cabral junto com Ed Motta, a fluidez de Jonatas Sansão, a beleza da conjunção atômica de bateras tocando em dupla em um disco de Michel Leme, e muitas outras mais…







Não parece a nós, que de um tempo pra cá a bateria brasileira mais do que nunca tem influenciado a maneira de nossos cantores e artistas comporem suas músicas?

Para mim, parece claro que tal notoriedade desses Bateristas-Músicos (com a tonalidade mais forte da palavra) é uma via de duas mãos, pois tanto a música deles está dando mais visibilidade à música de cantores populares, por exemplo, como a música de cantores e artistas em geral está dando mais visibilidade para esses bateristas antes considerados como meros músicos de apoio. Vida nova à música!



A história da nossa música instrumental e os baluartes da bateria


Não é novidade para ninguém que a história da música instrumental brasileira passa principalmente pela conjunção da bossa nova, do samba e do jazz, somados aos ritmos marcantes dos folclores regionais das mais longínquas partes do país.


O Choro pode ser considerado parte da história da música instrumental do Brasil, mas os outros ritmos foram os mais “próximos” ao que podemos chamar de precursores do encaminhamento dos temas, na parte instrumental, melódica, harmônica, e estrutural.


A bossa nova em sua versão instrumental foi nomeada de “samba-jazz” no início da década de 60. Com esse novo “movimento”, as harmonias jazzísticas foram mescladas com os ritmos brasileiros, criando novas melodias e temas. De lá pra cá, não só o Brasil, mas o mundo ganhou uma nova e importante influência. O Jazz de fora bebeu direto da fonte brasileira. E os instrumentistas brasileiros, envolvidos com o Jazz, formaram grupos com repertório focados na bossa nova e no jazz instrumental. Grupos como Tamba Trio, Zimbo Trio, Milton Banana Trio, Jongo Trio, Bossa Três, Sambalanço, Quarteto Novo (de Hermeto Pascoal), e os Copa 5, lançaram as bases de uma importante parte da nossa música instrumental.


Outro importante exemplo da música brasileira é a Banda Mantiqueira. Nelson Ayres nos dá o seu testemunho sobre ela:

Os arranjos e as interpretações usam todas as técnicas da história das big bands, mas tem os pés firmemente fincados nos coretos do interior, onde muitos dos músicos tocaram em público pela primeira vez. E cada solista abandona o caminho fácil de ser apenas mais um imitador dos grandes jazzistas para procurar sua própria verdade”.

Quando se pensa em música instrumental, se pensa em Improvisação. E criar e compor a música no momento em que ela acontece é privilégio de poucos instrumentistas.


A história dos nossos maiores instrumentistas e bateristas passa pela história do samba e da bossa nova instrumental. Nomes como Luciano Perrone, Edison Machado e Milton Banana, puxaram o cordão umbilical da música instrumental brasileira. Cleber Almeida, outro grande músico da cena atual brasileira, diz sobre Luciano: “O ‘pai ’ da bateria brasileira é o Luciano Perrone, que criou uma maneira própria de tocar samba quando nem o kit do instrumento era muito definido.”


Milton Banana, dono de um estilo singular, trouxe sua batida com uma forma única para a bossa nova, impronunciável aqui em palavras.

Edison Machado recortou o samba e criou o chamado “Samba no Prato”, mudando a perspectiva sonora que antes ficava somente a cargo dos tambores e da caixa.


Qualquer tentativa de tentar resumir aqui, algo da história da música instrumental brasileira, vai frustrar qualquer leitor e músico… Pascoal Meirelles, Wilson das Neves, Paulinho Vieira, Erivelton Silva, Celso de Almeida, Tutty Moreno, Duduka da Fonseca, Carlos Ezequiel e muitos outros, fizeram e fazem parte dessa história.


Mas vamos esboçar uma particular e importante parte dessa narrativa histórica: Os grandes bateras que passaram pelos grupos de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti;


Segundo a pesquisadora Marina Beraldo Bastos, “as obras de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti foram muito importantes para a formação da música instrumental como um gênero pleno, com termos temáticos, estruturais e estilísticos relativamente estáveis.”


Os bateristas de Hermeto Pascoal


Para mergulharmos na história dos bateristas de Hermeto, naturalmente é preciso caminhar na bela construção musical e percussiva do próprio Hermeto, que desde cedo, obteve seus alicerces musicais na natureza que o cercava. Pelos sons dos pássaros cantando, e pela ordem natural da nascente das corredeiras das águas que passavam próximas a sua casa, poderíamos procurar as fontes da obra de Hermeto. Ele costumava passar horas tocando e tirando sons da água da lagoa. Os sons da natureza talvez o inspirassem não desde pequeno, como diz sua biografia, mas talvez desde sempre, pois as figuras humanas vêm e vão, e talvez ele já tenha sido outras partes da natureza, para incorporá-las com tanta facilidade em seu som. O empirismo agudo dedicado na sua forma de compor e de pensar música foi criando os rastros por onde seus futuros bateristas e percussionistas não poderiam desviar para não se perder dos caminhos belos e tortuosos de sua complexa arte musical. O caminho sempre foi o da riqueza rítmica e percussiva de suas composições.



A história da “Música Universal” de Hermeto Pascoal sempre obedeceu aos mesmos princípios: Liberdade, naturalidade, e inexistência de limites, calcando sempre seu som pelo conceito de Boa Música.


E é com esse conceito que foi dada a partida à jornada musical de Hermeto...


O primeiro disco oficial de Hermeto foi o LP “Hermeto”, gravado e lançado nos EUA, com a assinatura baterística de Airto Moreira.


Em 1965, no disco “Em Som Maior”, veio mais uma aparição de Airto Moreira na bateria e percussão. Foi com Airto que os primeiros passos em direção à criação do aclamado conjunto “Quarteto Novo” foram dados. O grupo já existia com o nome de “Trio Novo” antes da entrada de Hermeto. O primeiro e único disco do grupo se chamou “Quarteto Novo” e se deu em 1967 com participações de grandes nomes da música brasileira, como Heraldo do Monte. Foi nesse disco que apareceram as famosas composições de Hermeto, como “O Ovo” e “Canto Geral”. O Quarteto se consagrou por misturar ritmos nordestinos com arranjos jazzísticos, impulsionando a carreira de Airto Moreira como percussionista pelo mundo.


Com o disco “A Música Livre de Hermeto Paschoal”, de 1973, iniciou-se a trajetória de Nenê na bateria hermetiana. Gravou dois famosos discos, “Zabumbê-bum-a” e “Hermeto Pascoal ao vivo em Montreux”. Nenê, até hoje, é um dos bateristas mais celebrados da música brasileira, por sua identidade, talento, e por ter tocado em discos antológicos junto a artistas renomados como Milton Nascimento e Elis Regina.


Nenê dá seu depoimento sobre o que era tocar com Hermeto: “Para mim, foi superimportante ter participado da vida musical deste excepcional músico. O Hermeto Pascoal foi quem me mostrou os ritmos brasileiros, o que me foi de grande valia. Dos discos que gravei com ele, três deles, 'A música livre de Hermeto Paschoal', o primeiro do Grupo, 'Zá-Bum-Be-Bum-Á' e "Live in Montreux", considero de suma importância para minha carreira. O Hermeto foi um dos meus mestres.”



Zé Eduardo Nazario foi outro importantíssimo baterista brasileiro, que não por acaso, passou pela “escola” de Hermeto. Fez sua estreia no grupo em 1973 e permaneceu até 1977, tocando bateria e percussão e fazendo apresentações memoráveis nesse período. Participou com Hermeto no Festival Abertura da Globo em 1975, onde a composição "O Porco na Festa" obteve o prêmio de melhor arranjo do Festival. Nesse arranjo, Hermeto escreveu uma introdução especialmente para a performance de Zé Eduardo Nazario na então inédita "barraca de percussão", de criação de Zé e mostrada pela primeira vez na televisão brasileira. Zé Nazario comenta sobre seu percurso com o mestre: "Toquei bateria e percussão com o Hermeto num momento muito especial da nossa história... Foi um grupo que quebrou barreiras até então intransponíveis no que diz respeito à criatividade, inovação, energia e coragem de mostrar ao público um novo caminho para o músico e a música brasileira e mundial, que influenciou a todos, tanto aos mais experientes quanto aos mais jovens, e aos que vieram depois."


Zé também participou do disco "Imira, Tayra, Ipy, Taiguara", onde tocou percussão e bateria. Nos anos pós-hermeto, Zé trabalhou também com Milton Nascimento, John McLaughlin e Joe Zawinul.

Os anos 80 começaram com Alfredo Dias Gomes na bateria do disco “Cérebro Magnético”.


Em 1982, iniciou-se a fase em que Márcio Bahia assumiu as baquetas, no álbum “Hermeto Pascoal e Grupo”. Trazendo sua autêntica vibração advinda do seu consistente toque, Márcio conseguiu dar um caráter extremamente preciso e suingado à música de Hermeto.

Os discos mais essenciais e importantes de Márcio Bahia com Hermeto foram “Hermeto Pascoal e Grupo” de 1982, “Só não toca quem não quer” de 1986, e “Festa dos Deuses” de 1991, que mostraram toda a fluência e dinâmica de Bahia.

Márcio Bahia toca e já tocou com grandes nomes do cenário musical, como: Hamilton de Holanda, Marco Pereira, Vittor Santos, Leny Andrade, Jhonny Alf, Marcos Valle, João Donato, Carlos Lira, Roberto Menescal e Wanda Sá, Joyce, Gilson Peranzetta, João Bosco, Maria Bethania, Leila Pinheiro, Eliane Elias, David Friedman, Thijs Van Leer (Focus), Baden Powell, Toquinho, Ednardo, Fagner, entre outros.

Ajurinã Zwarg completa a série de bateristas que passaram pelas formações de Hermeto. Atualmente, Ajurinã é um dos bateristas de Hermeto Pascoal e Grupo ao lado de Márcio Bahia, que foi um dos responsáveis pela sua iniciação musical na bateria.




Depoimento pessoal de Hermeto sobre seus bateristas

De forma objetiva, e não por isso menos passional, Hermeto comenta sobre todos os bateristas que passaram por sua vida:


Todos que trabalharam comigo contribuíram muito, com seu jeito pessoal e musical. Por isso, chamo minha música de Música Universal. Não comparo um ao outro, nem cito as características individuais de cada um… As gravações estão aí para cada um ouvir... Tenho um imenso carinho por todos os bateristas que tocaram e tocam comigo.”


Egberto Gismonti e sua turma percussiva


Egberto Gismonti tem uma afinidade muito especial com Hermeto: Multi-instrumentista, compositor e arranjador, ele é dono de uma sensibilidade apurada e vive a música com uma alta dose de experimentalismo, sempre.


E de tal afinidade, já seria normal se esperar que o vértice rítmico de seus grupos fosse comandado pelas baquetas de músicos que também passaram pelas formações de Hermeto.

Cabe destacar aqui no histórico das formações musicais e álbuns de Gismonti, o disco “Sanfona”, com Nenê na batera.


Sobre Egberto, Nenê diz: “O Egberto, dono de uma sonoridade única no piano e de um modo de improvisar totalmente original, além de um senso rítmico muito apurado, me proporcionou uma execução na bateria expressamente aberta e polirrítmica. Dos discos que gravamos, gosto de todos, mas, o disco "Sanfona" é o meu preferido. Violão também é um instrumento em que ele é mestre.”


Além de “Sanfona”, outro grande disco da carreira de Egberto foi “Academia de Danças”, de 1974, com Robertinho Silva na bateria.


Egberto Gismonti, num show, confessou: “Não tenho medo da música”… Negação de um medo, que é sabido e enfrentado pelo músico, sendo acompanhado em sua filosofia por bateras como Robertinho, que desde cedo enfrentou o “medo”, e com sua batida forte, foi se tornando um dos mais requisitados percussionistas e bateristas da música brasileira, tocando com nomes como João Donato, Gilberto Gil, Toninho Horta, Gal Costa, João Bosco, e outros do exterior, como Wayne Shorter, Sarah Vaughan, George Duke, Moacyr Santos, Airto Moreira, Flora Purim, Egberto Gismonti, Ron Carter.


Robertinho ainda lançou, com participações de Egberto Gismonti e Raul de Souza, seu primeiro disco solo em 1981, “Música Brasileira Popular Contemporânea”. Ele, atualmente, está voltado à carreira solo e à pesquisa dos ritmos folclóricos do Brasil.


Colaboraram ainda em discos de Egberto Gismonti o percussionista Naná Vasconcelos (“Dança das Cabeças” e “Duas Vozes”), Zé Eduardo Nazario (“Nó Caipira”), e Airto Moreira.


Cabe finalizar aqui, usando o exemplo de Gismonti e seus bateristas, que a música e a bateria instrumental brasileira estão no ápice de suas formas, se orientando cada vez mais para estruturas complexas, num universo em expansão sonora de texturas e dialetos musicais.


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por caio garrido



Parte desta matéria foi incluída e publicada na edição de março/2011 da Revista Modern Drummer Brasil